Solaris
deldebbio | 16/07/2009Em pelo menos 99% de todas as historias envolvendo o contato do ser humano com seres alienigenas, seja hostil como em “Alien - O Oitavo Passageiro”, seja amigavel como em “E.T.”, envolve especies com pelo menos alguma caracteristica humana, seja positiva ou negativa, se não a propria forma humana, num antropomorfismo meio arrogante, já que se as Leis da Evolução forem validas em todos os lugares, não há garantia que a vida inteligente de outros planetas seguiria o mesmo caminho evolutivo que o nosso…
Talvez seja esse ponto que faz de “Solaris”, classico da ficção cientifica escrito pelo escritor polones Stanislaw Lem em 1961 e levado duas vezes ao cinema, a primeira em 1971 na legendária versão de Andrei Tarkosky e outra bem mais recente por Steven Soderberg, um marco. Aqui, o alienigena com o qual a Humanidade tenta fazer contato simplesmente é tão diferente de nós que talvez tal contato não seja possivel nem em teoria… mas estamos nos adiantando.
A historia acontece na Estação de Pesquisas de Solaris, um planeta que orbita um sistema binario de estrelas nas imediações da Estrela Alfa da Constelação de Aquario, a 760 anos-luz da Terra, descoberto a cerca de 200 anos, para se juntar a equipe de “solaristas” (especialistas em Solaris) composta pelo Dr. Gibarian, Dr. Snow e Dr. Sartorius, para estudar o unico “habitante natural” do planeta… e a expressão “habitante natural” é apenas uma tentativa para descrever essa entidade com a linguagem humana: um oceano “plasmatico” que cobre todo o planeta Solaris. Por mais de cem anos, a Humanidade tentou entrar em contato com esse colosso - mesmo tendo duvidas se ele era realmente algo que poderiamos chamar de “vivo” -, sem sucesso. Estruturas plasmaticas gigantescas criadas pelo oceano, chamadas de “simetriades”, “mimoides” e outros nomes estranhos, eram analisadas em expedições que custaram a vida de vários pesquisadores, mas outra vez sem sucesso… O oceano vivo de Solaris permanecia uma charada escondida dentro de um enigma para os solaristas, apesar de todas as observações e dados coletados…. a tal ponto que a comunidade cientifica começa a imaginar se deve desistir do Contato com o Oceano…
Kris Kelvin, um psicologo especialista em solaristica, é enviado para a Estação Solaris, com o objetivo de fazer um relatorio para determinar a continuidade ou não das pesquisas sobre o planeta… e as coisas estranhas começam a ocorrer logo na sua chegada. Primeiro, ninguém aparece para recepciona-lo, então Snow age estranhamente sem dizer coisa com coisa e então informa que Gibarian, mentor de Kelvin, se matou… então Kelvin vê uma mulher misteriosa andar pela estação, sendo que ela desasparece sem explicações… O psicologo tenta obter explicações, mas Snow continua misterioso e Sartorius está trancado em seu laboratorio. Então, Kelvin encontra alguém em seus aposentos: sua mulher Rheya… o detalhe é que ela se suicidou a dez anos… e parece não saber disso: ela é uma “Visitante”, um ser criado pelo oceano de Solaris a partir das memorias mais fortes de Kelvin e não importa o que Kelvin faça, ela sempre retornará…
Será que aquela é realmente Rheya, ou apenas o Kelvin se lembra dela? O oceano a criou e aos outros “Visitantes” com que objetivo? Tortura-los? Estuda-los? Ou será que é a tentativa do oceano em entrar em contato com a Humanidade, mas mesmo esse gigante não sabe como? E o que Kelvin fará com seus sentimentos cada vez mais fortes com relação a esta Rheya, ao mesmo tempo que Sartorius e Snow tentam descobrir uma maneira de eliminar os Visitantes? Será que a Humanidade realmente *quer* entrar em contato com outras civilizações ou quer apenas, como um dos personagens coloca, “estender os limites da Terra conosco… Não queremos outros mundos… queremos espelhos”? Ou como coloca a citação de um solarista: “Como você quer entrar em conversar com o
oceano, quando não conseguimos conversar entre nós mesmos?”
Lem lembra que mesmo que a Humanidade se espalhe por todo o Universo, enquanto desiste do contato com o oceano, ele estará sempre lá, com seu silêncio, incomodando a arrogância humana de achar que sabe tudo e nada é desconhecido… mas, ao mesmo tempo, mostra que a ciência não é forma perfeita de se conhecer o mundo: é apenas a melhor que temos e pode nos ajudar a entender… desde que deixemos nossa arrogancia de lado e admitamos para nós mesmo que “só sabemos que nada sabemos”…
Uma lembrança muito sensata… especialmente hoje em dia…
Por Jocimar Oliani
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