Grécia, 370 a.C.

O senhor do Olimpo inspirou profundamente, e relaxou seus ombros no encosto de seu trono. O néctar, a bebida mais saborosa e refrescante que poderia ser concebida, tinha um gosto amargo e pungente nos lábios do deus dos deuses. Surpreendentemente, ele não se importava. O relâmpago em sua mão ainda era capaz de fulminar qualquer ser que não o próprio senhor do Olimpo que tocasse, mas era perceptível ao deus supremo que seu ardor não era o mesmo de antes.
"Antes...", pensou Zeus, "O que pode o Antes ser mais que o Depois ou que o Agora? O tempo não tem significado para aqueles que são imunes a sua passagem... ou tem? Seria essa a vingança final de meu pai, tendo perdido a batalha, mas finalmente vencido a guerra?"
Os outros deuses presentes no salão do Olimpo não percebiam, ou não se importavam, com as inquietações do maior entre eles. Zeus mudou de posição em seu trono, um reflexo físico de sua mudança de opinião.
"Não! Chronos está trancafiado no Tártaro junto com os outros Titãs. O tempo não afeta o Olimpo. Isso é uma preocupação dos homens, e que importam os insignificantes problemas dos mortais para aqueles que aqui estão?"

Os olhos de Zeus percorreram o suntuoso salão de mármore e contemplaram filhos, irmãos e primos. Alguns estavam ausentes, mas ele podia vê-los como se estivessem diante dele. Pensou em quanto havia se passado desde que os Olímpicos perderam o interesse no povo que vivia aos pés de sua montanha. Gregos eles se chamavam, e em nome ou pela vontade dos deuses, guerrearam, sacrificaram, morreram, amaram e celebraram. Mas houve um dia em que os homens caçaram no bosque sagrado de Ártemis e ela não estava lá para puni-los. Um dia em que Dionísio não estava presente para agraciar o vinho com a energia da celebração. Foi o dia que Deméter abandonou as colheitas. No dia em que Hera parou de abençoar os matrimônios. Naquele dia Zeus já não se importava mais em fulminar os injustos com seus raios.
Os mortais notaram a reclusão dos deuses. Sua presença, embora ainda sentida, já não era uma influência freqüente no cotidiano do povo grego. Não demorou para os sacrifícios já não serem mais a norma. Moedas não eram mais colocadas na boca dos mortos. Os oráculos foram substituídos mais e mais pela geometria, a filosofia e a matemática. E o senhor do Olimpo não se importava. Não era a primeira vez que pensava sobre isso desde aquele dia, tantos anos atrás. O tempo não afetava os deuses.
Zeus não tinha nenhum desejo de beber mais, porém Ganimedes havia sido doutrinado a manter as taças sempre cheias. O rapaz caminhava na direção do deus supremo quando aconteceu. A jarra balançou na bandeja com um tinido quase imperceptível. Nenhum dos deuses pareceu notar.
O segundo foi mais forte. Os deuses não o teriam percebido, mas Ganimedes o sentiu e não pode suportar. Desequilibrou-se e caiu, a bandeja de prata atingiu o chão, a jarra de cristal espatifando-se em milhões de pedaços e derramando o líquido divino no piso de mármore do Olimpo.
Zeus se levantou. Séculos de cólera reprimida seriam despejados sobre o servo que falhara no cumprimento do dever. O relâmpago se acendeu, e a mão direita de Zeus se erguia quando o terceiro tremor começou. Esse os deuses não puderam ignorar. Toda a montanha balançou. Rachaduras apareceram nas colunas que sustentavam o firmamento. Alguns que estavam de pé tiveram que se sentar para não cair. Zeus continuou ereto.
Foram apenas segundos de tremor, suficientes para que Zeus direcionasse sua ira para um novo, e maior, alvo.
"Posêidon! Que traição é essa? Teria meu próprio irmão conspirado contra o Olimpo?"
"Que dizes, irmão? Como podes acusar sem prova ou motivo àquele que a ti sempre foi fiel?"
"Todos sabem que a terra só treme por três motivos. Quando meus raios atingem o solo, quando Ares marcha para a guerra e quando TU comandas! Explica-te!"
"Te enganas, meu pai." disse a voz da única que poderia se atrever a contestar o senhor do Olimpo, a voz sábia da filha preferida.
"Engano-me, Atena? Como pode isso ser possível?"
"Há uma outra razão pela qual a terra pode tremer: quando aquele que a carrega nos ombros a desequilibra."
Zeus parou surpreso. Teria o condenado se atrevido a desdenhar de sua pena? A letargia de séculos que até minutos atrás assolava o deus supremo se evaporou no vigoroso fogo da ira. Talvez fosse a hora de administrar uma nova punição ao condenado, como talvez deixá-lo carregar o mundo sem um dos braços.
"Atlas! Maldito seja!", declarou o soberano, "Desrespeitar punição imposta pelo Olimpo é ofensa das mais graves! Acompanheis-me vós que não pretendeis deixar tal afronta impune, pois Atlas terá aquilo que merece por isso!"

O entusiasmo do maior dentre eles estimulava os outros Olímpicos. Nenhum ficou para trás.

- - -

Os Olímpicos desceram às profundezas da terra, rumo à caverna onde Zeus havia aprisionado o Titã Atlas e o condenado a sustentar para sempre o peso do mundo nas costas. A comitiva divina, depois de horas de caminhada, chegou ao local exato.
A alguns metros eles podiam ver a silhueta musculosa que carregava seu fardo. Zeus parou o grupo com um gesto de sua mão e bradou: "ATLAS! Que pilhéria tentaste aprontar? Tens pouco tempo para se explicar antes que eu traga o cão de meu irmão para comer tuas carnes aí onde estás!"
Alguns segundos se passaram antes que uma voz que não era a do Titã que os deuses esperavam encontrar respondesse:
"Pai! Sois vós?"
"Pai? Quem é aquele que não é o condenado e me chama de pai? Apolo, ilumina-o!"
A luz de Apolo permitiu que contemplassem a face daquele que cumpria a pena no lugar do Titã. O semblante estava terrivelmente ferido, os olhos inchados, sangue seco cobria sua fronte e manchava sua barba, porém suas feições ainda podiam ser reconhecidas, e a pele de leão que cobria seu torso era inconfundível. Todos os presentes reconheceram o filho de Zeus com a mortal Alcmena.
"Herakles!" disse o senhor do Olimpo " Que fazes tu aqui, e onde está aquele que deveria estar em teu lugar?"
"Perdoai-me, pai! Perdoai-me porque falhei! Fraquejei e não pude resistir a meus atacantes! Fui emboscado e acorrentado, trazido aqui para que eles pudessem libertar o condenado! Sabiam que eu era capaz de sustentar o fardo, pois já o havia feito antes, e que conseguiria por pelo menos tempo suficiente para que pudessem escapar!"
"Quem fez isso?!"
"Falhei, falhei. Fui fraco mais uma vez. Durante toda minha vida, a glória que minha força me trouxe foi obscurecida pela vergonha de minha fraqueza. Falhei quando amigos morreram pelas minhas mãos, falhei quando meus filhos morreram pelas minhas mãos, falhei quando esposas morreram pelas minhas mãos."
"QUEM fez isso?!"
"Falhei, mas não falharei outra vez. Que essa seja a punição por minha fraqueza! Acharam que eu só sustentaria o mundo por tempo suficiente para encobrir sua fuga, mas não! Sustentarei para todo o sempre, em nome de todos aqueles a quem já fiz mal. Pagarei por minhas falhas aqui, meu pai, enquanto vós buscais aqueles que me colocaram aqui e lhes dá a devida punição!"
"QUEM?! Quem se atreveu a açoitar meu filho e libertar aquele que condenei? Quem são aqueles que serão trancafiados junto com os Titãs que apodrecem nas profundezas do Tártaro?!"
"Não mais apodrecem, meu pai," disse Herakles "pois foram justamente os Titãs que me emboscaram. De algum modo saíram de sua prisão e me tomaram, antes de libertar o mais forte dentre eles. Daqui rumaram para o sepulcro de Typhon, para ressuscitá-lo e levá-lo consigo."
"Como? Para onde foram? Arrancarei a pele de seus ossos e farei com eles uma pilastra para sustentar o peso que agora recai sobre teus ombros!"
"Não sei para onde foram nem como escaparam. A única coisa que sei é que não planejavam voltar. Não vos preocupai com meus ombros, pai, pois já tomei minha decisão e pretendo para sempre ficar aqui e sustentar a terra. Aqui não poderei mais causar mal àqueles que amo. Vade, Olímpicos, deixai-me aqui em minha vergonha expiando meus pecados. Buscai aqueles que praticam o mal e estão à solta!"
"Hermes," disse Zeus, com a cabeça baixa, "chama Hefesto em Lesbos e Hades em seu reino. Que todos convoquem seus filhos e seguidores. Reunir-nos-emos no Olimpo ao anoitecer."

- - -

10 anos se fizeram necessários antes que uma pista do paradeiro dos Titãs fosse encontrada. Apolo divinou vários indícios, e nomes que nenhum Olímpico já tinha ouvido antes apareceram. Durante todo esse tempo, não havia um dia sequer em que eles se esquecessem daquele que se sacrificara por eles, e nenhum dia descansavam enquanto não descobriam onde se escondiam suas presas.
E então veio um dia em que o Olimpo tremeu mais uma vez. Alguns cogitaram que Herakles havia fraquejado mais uma vez, porém esse pensamento logo foi dispensado. O filho de Zeus não fraquejaria jamais. A fonte do tremor era outra.
No meio do salão o piso se fendeu, e de lá emanou uma sensação de angústia jamais sentida pelos Olímpicos. Reuniram-se ao redor da fenda quando uma voz ecoou em suas mentes divinas, com apenas algumas palavras desconexas:
"Norni... G'Goschih"
De súbito, imagens daqueles que por anos procuraram invadiram os olhos de todos os presentes. Lá estavam os Titãs, marchando sobre cidades que os deuses não conheciam, comandando estranhas criaturas e dizimando homens como aqueles que no passado tanto interesse despertaram nos Olímpicos. E sobre tudo isso uma sombra, uma nuvem malévola consciente, radiante de poder e maldade.
Em sua infinita sabedoria Zeus então compreendeu... os Titãs escaparam não só de sua prisão como também de seu mundo; e lá travavam guerra contra as forças daquele que em seu último alento a eles veio rogando auxílio... um chamado que os Olímpicos não iriam ignorar.
Destaque
HI-BRAZIL



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