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A Máquina do Tempo

Em 1895, uma historia publicada em formato de folhetim nas revistas inglesas foi compilada e lançada como livro. Era uma história que tratava do futuro, um tema bem discutido na nessa época: quais seriam as novas tecnologias desenvolvidas no século que viria? Como a sociedade reagiria? O que o Futuro reservava para a Humanidade? O que tornava essa historia diferente de outras era que o protagonista não apenas imaginava ou descobria de forma mágica: ele construia uma máquina especialmente para ver os próprios olhos que estava por vir. Essa historia era “A Máquina do Tempo”, o primeiro livro de Herbert George Wells, um dos pioneiros da ficção cientifica.

“A Máquina do Tempo” começa quando o protagonista – que será chamado pelo narrador de “O Viajante do Tempo” – expõe suas idéias sobre uma “Geometria Tetradimensional” na qual além de Comprimento, Largura e Altura o Universo teria outra dimensão que nós não percebemos normalmente: o Tempo…. e como ele estaria construindo uma máquina para viajar por essa dimensão. Obviamente, seus amigos acham que é apenas uma brincadeira do Viajante… Isto é, até que uma semana depois, o Viajante do Tempo chega na sua sala de jantar, parecendo ter sido atropelado por uma guerra, e começa a contar seu incrivel relato.

O Viajante conta como, usando sua Máquina do Tempo, chegou bruscamente no ano de 8.002.701 D.C. (e não 802.701 D.C. como as versões filmadas dessa história mostram) e se depara com uma Humanidade em declinio, transformada em criaturas frágeis e infantis, os Eloi. É interessante o choque desse homem vitoriano com esse mundo do futuro – enquanto várias histórias de viagem no tempo se esquecem que com o passar do tempo a mentalidade e mesmo a linguagem mudam, em “A Máquina do Tempo”, Wells mostra o Viajante, figurativamente, batendo com o nariz na porta, seja para tentar entender a linguagem dos Eloi, sejá para entender como o Mundo chegou onde chegou. Alias, as teorias que o Viajante para tentar explicar esse futuro – que com o desenrolar da história chegam a ser tornarem ironicas – mostram como não importa o que faça, o ser humano sempre levará a mentalidade de seu tempo presente com seus triunfos e preconceitos, avaliando o mundo sob sua própria visão… será que se nós pudessemos viajar no tempo, teriamos a capacidade de entender o futuro, quando não conseguimos entender nosso próprio passado, ou as outras civilizações do nosso próprio presente?

Conforme a historia prossegue, o Viajante começa a perceber algo estranho com o mundo dos Eloi – que ele julgava viverem numa utopia: primeiro, se eles apenas brincam, comem e se divertem, quem faz as roupas e outros objetos que os Eloi usam? Porque eles tem tanto medo da escuridão? E onde está sua Maquina do Tempo, que simplesmente sumiu? Ao começar a juntar respostas para essas perguntas, o Viajante do Tempo, acompanhado de Weena, uma Eloi, conhece os Morlocks, seres monstruosos e repulsivos que vivem nos subterraneos… e começa a entender a verdadeira relação entre Eloi e Morlocks. Será que o Viajante do Tempo conseguirá recuperar sua Máquina e partir dessa época?

Wells sempre acreditou que a ficção devia servia como um instrumento para se divulgar idéias – e essa crença está clara em “A Máquina do Tempo” ao conectar o Futuro dos Eloi e Morlocks com a realidade da elite e da classe operária da época em que a historia foi escrita – conexão infelizmente perdida nas versões filmadas – uma realidade que se mantem até hoje e uma critica ainda valida, especialmente hoje em dia.

Será que a Humanidade pode impedir sua derrocada ou seu declinio já foi decidido pela maneira que tratamos nossos semelhantes hoje? “A Máquina do Tempo” é um aviso contra o fato de ficarmos de braços cruzados, enquanto as injustiças continuam a acontecer. Será que, no Futuro, ainda “a gratidão e uma ternura mutua ainda viverão no coração dos homens”?

Ainda não se conhece a resposta… mas seremos nós que a decidiremos.

Por Jocimar Oliani