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Conto: A Emboscada

Estão todos mortos. E eu também quase morri. Por mais vezes que eu passe por isso, nunca vou me acostumar com a sensação de frio nas tripas. Agora devo me arrastar de volta ao acampamento e relatar a Lorde Rabican o sucesso da missão. Depois, devo percorrer o acampamento para contar a ny’Marro que seu irmão e seus primos morreram. Também nunca vou me acostumar com a maneira fria e distante com que os Firbolg aceitam a morte. Eles parecem gostar dela quando vem acompanhada de uma boa dose de violência. Ny’Marro vai apenas me perguntar: “Como morreu o irmão meu?”. A resposta correta é: “Como um homem, como um Firbolg”. Ele não precisa saber que havia lágrimas nos olhos do garoto de quinze anos enquanto ele era cercado e reduzido a pedaços pelos machados dos servos. Mas também é verdade que não deu ao inimigo o gosto de um gemido e manteve no rosto a impressão impassível, embora não conseguisse conter as lágrimas. Maurice, Farrel e Garrick são mais espontâneos, como homens do Oeste que são: nobres ou lavradores, esconderão o rosto para chorar em silêncio a morte dos parentes e, depois de alguns minutos, levantarão a cabeça com sede de sangue no olhar. O sentimento ideal para entrar no campo de batalha contra um inimigo três vezes superior. Depois, vou limpar minhas feridas, enfaixar o braço, buscar um novo escudo nas barracas do arsenal, afiar minha fiel espada e marchar para a frente de batalha, pois o combate deve iniciar em uma hora, quando a estrela de Ceiscoran estiver no meio do céu, marcando meia-noite.

O garoto nos salvou ou, pelo menos, nos deu mais um fôlego. E era um arqueiro soberbo. Enquanto nós retirávamos do norte, em marcha acelerada e com um terço dos exércitos de mortos-vivos da maldita Shiver em nossos calcanhares, ele percebeu que os sem-alma subiam do sul preparando seus dardos para deter nossa retirada, o que daria aos servos o tempo de nos fatiarem com seus machados. O garoto subiu a ponte e destruiu um a um os malditos caras-de-caveira. Isso nos deu fôlego para alcançar a ponte e limpá-la dos servos, mas não antes de eles o chacinarem. Era um bom garoto e, se tivesse sobrevivido, teria ganho um nome de batalha e seria considerado um homem. Infelizmente, isso não aconteceu. Os Firbolg dirão que ele vai reencarnar para voltar à batalha e conquistar um nome que não seja esquecido. Pela primeira vez eu desejo que suas crenças estranhas tenham algum fundamento. Afinal, era um bravo garoto.

À medida que me arrasto pela estrada, lembro como tudo isso começou para mim, há dez anos. Eu tinha apenas oito anos quando fui brincar no riacho e me esqueci de voltar para casa. O sol estava no poente e o vento dizia que logo desabaria uma tempestade. Quando me aproximei da cabana ao pé da colina, percebi que alguma coisa estava profundamente errada. Não ouvia as risadas dos meus irmãos, nem o canto melodioso de minha mãe. O machado de papai não batia contra a madeira. O silêncio era pesado. Parece que ainda me vejo chegar ao limiar da porta e chamar: “Papai!? Mamãe?! Sonara?! Patrick?!”. E depois enxergar a mancha escura no chão, o cheiro desconhecido, o pezinho atrás da porta, o rangido da madeira debaixo dos meus pés. Parece que me lembro de quando entrei em casa e fechei os olhos antes de espiar atrás da porta para ver minha mãe e minha irmã caídas de bruços, com as costas totalmente abertas e o mar de sangue ao redor. Parece que ainda ouço o meu próprio grito de desespero e o gemido no outro quarto, para onde corri apenas para encontrar Patrick e meu pai caídos, meu irmãozinho reduzido a postas de carne ensangüentada cuja mão ainda segurava um espeto, e o velho e robusto lenhador que um dia fora meu pai separado de seu braço e suas pernas, gemendo. Corri para ele e segurei sua cabeça em minhas pernas pensando em uma maneira de emendá-lo. Ele pôde apenas abrir os olhos mais uma vez e dizer: “fuja, cresça e vingue-nos”. Parece que me vejo saindo da casa aos tropeços, apenas para enxergar, no alto da colina, recortada contra o céu vermelho do poente e iluminada por um relâmpago, a figura medonha daquele zumbi desgraçado, arrastando o machado ainda ensangüentado e me olhando com aqueles doentios olhos esgazeados. Parece que foi há pouco a corrida louca pelo bosque, parando a cada pouco para ouvir e apenas constatar que ele continuava no meu rastro e tornar a correr, sentir os galhos dos arbustos arranhando a pele do meu rosto e dos meus braços, até não me restarem mais forças e cair aos pés da rocha dos ancestrais e esperar o maldito servo se aproximar. Parece que há apenas instantes lembrei-me de que o monolito era o memorial da vitória de Connacht sobre os Myrkridia na Era do Vento e pus-me a orar para Heron para que preservasse minha vida, não por medo, mas para cumprir o voto que fizera a meu pai.

À medida que me aproximo do acampamento da Legião, ouço meus pés se arrastando na estrada e lembro o som dos pés daquela coisa, o primeiro servo dos Fallen Lords que eu encontrei nesta maldita vida, e revejo as folhas do bosque se abrindo para dar passagem ao monstro. Naquele momento eu não tinha mais forças para correr e não podia acreditar que houvesse coisas piores do que o horror que se aproximava com o machado em punho e um sorriso obsceno no rosto apodrecido. Só tive forças para orar e fechar bem os olhos enquanto esperava o golpe final. Depois, o barulho de metal cortando violentamente, rompendo carne e ossos com brutalidade e eficiência. Em seguida o silêncio e a expectativa (“será que tudo acabou?”). Espiei, primeiro pela fresta de um olho, depois por outro, até arregalar os dois olhos diante da enorme figura musculosa, o corpo coberto de cicatrizes, as enormes mãos calejadas empunhando a afiada lâmina ensangüentada. A seus pés, o servo cortado ao meio, dividido em dois. No rosto barbado do gigante ruivo os olhos verdes e faiscantes como os de um gato iluminam um sorriso selvagem sob a barba hirsuta. Ele me estende a manzorra e convida: “Vamos, pequenino?”. Lembro a minha hesitação em estender minha mãozinha para a sua, em sentir sua firmeza e caminhar ao seu lado até o acampamento da Legião, um acampamento mais alegre e mais tolo em sua arrogância e esperança do que este do qual me aproximo. Hoje estamos mais velhos e calejados. Hoje, aos dezenove anos, sou um veterano de muitas batalhas, sempre indicado para as missões mais arriscadas. Meus superiores não cansam de se assombrar com minha frieza em batalhas e com a maneira como me especializei em destruir bandos de servos. Nenhum dos outros servidores dos Fallen me dá tanto prazer quanto eles. Os maldosos ghôls, os venenosos sem-alma, nem os perigosos e explosivos pútridos são tão gostosos de serem retalhados quanto eles.

Estou chegando ao acampamento. Meus companheiros se aproximam e Truan, “O Faminto Por Batalhas” abre caminho entre eles como um navio entre as ondas. Ele me abraça como há dez anos, sua barba está molhada de lágrimas e seus olhos estão confusos entre a alegria de me ver vivo, a preocupação com minha saúde e a vontade de me repreender por minha insensatez em continuar aceitando missões como esta. “Pequenino, você continua sendo um garoto travesso. Não vai crescer nunca. Será que vou ter que bater em sua cabeça até abri-la e enfiar um pouco de juízo aí dentro? Eu o salvei e treinei para ser um soldado, não um louco à procura da morte”. Os outros riem ao redor. “Paizinho, antes de abrir minha cabeça como uma noz, me leve até Lorde Rabican. Tenho notícias importantes para ele. Conseguimos atrair pelo menos um terço dos exércitos de Shiver para o lado de cá do Scamander. O irmãozinho de ny’Marro conseguiu explodir oito ou nove dos pútridos bem no meio deles, causando uma destruição impressionante”. “Jovem leão?”. A voz pausada e firme é de ny’Marro, ele me olha com seus olhos misteriosos ladeando seu longo e adunco nariz de falcão. É, ele parece um falcão de longos bigodes. Eu começo a dizer “ny’Marro, ele…”. “Eu sei, Jovem leão. Ele morreu como um homem”. Aquele maldito sorriso misterioso de novo. “Todos já sabemos da valentia dele e da sua. Iu’Shee também sobreviveu com alguns dos nossos rapazes e com alguns dos seus também, mas ele pegou um caminho diferente e chegou antes. Parece que vocês se extraviaram no calor da batalha”, explica ele. “Vamos menino, você precisa descansar”, diz Truan. Ele não se convence de que eu cresci, nunca vai se convencer. “Não Truan. Tenho de ir ao andarilho, curar minhas feridas, trocar o escudo e reunir meu pelotão. Daqui a uma hora atacaremos Shiver e eu ainda preciso completar minha cota de inimigos mortos hoje, antes de dormir. Você sabe que não consigo dormir sem matar muitos deles”. “É, eu sei. É como diz a canção: ódio ardente e tristeza profunda…”. ele começa a cantar e todas as vozes se juntam à sua enquanto os homens hasteiam os estandartes, desembainham as espadas e formam os pelotões, deixando apenas espaço para que Truan me leve para a barraca do curandeiro. A canção, só ela importa:

“Sangue e dor,
Fome e frio,
Ódio ardente e profunda tristeza,
Lutando dia após dia,
Sem nunca desistir,
Nós combatemos.

Conhecemos tudo que há no coração dos homens.
Na vergonha da mais fragorosa derrota,
Pelo vibrante júbilo de retumbantes vitórias,
Na incerteza das retiradas fustigadas pelo inimigo,
Pela alegria da caçada e da vingança,
Nós combatemos.

Nobres cavaleiros das cidades livres do Oeste e
Laboriosos anões da antes altiva Myrgard,
Bravos e sombrios arqueiros Firbolg e misteriosos Andarilhos,
Indomáveis bárbaros do norte e sábios gigantes da Floresta,
Nós somos a Legião
E nós combatemos”.