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Conto: Almas Torturadas

Almas Torturadas é a primeira das Crônicas de Necropia, uma série de contos e histórias que mostram vários aspectos da Terra dos Mortos. Escrita e Ilustrada por Nitro, “Almas Torturadas” conta a história de uma estranha amizade entre um poderoso Cavaleiro morto-vivo e uma pequena bárbara mortal vinda de um mundo subterrâneo. Aventura, terror, ação e intrigas o aguardam no gótico mundo de Necropia – Terra dos Mortos!”

“ALMAS TORTURADAS”
INTRODUÇÃO:

“Existem incontáveis dimensões, incontáveis mundos na complexa estrutura que chamamos de Realidade. Em um desses planos existe um mundo muito diferente do nosso. Um mundo que foi criado a partir do Olho de um Deus Supremo, um mundo que foi povoado por Deuses Selvagens filhos do Vazio, um mundo onde os Sefiras, os filhos do Deus Supremo brigam para purificá-lo e devolvê-lo para o Sagrado Corpo do seu Criador.

Porém, os Sefiras não contavam com a traição das raças que eles mesmo tinham criado para povoar este mundo. Eles não contavam que seriam assassinados pelos seus próprios filhos. E os seus filhos não contavam que os Deuses Assassinados voltariam da morte e se vingariam de suas próprias criações.

Este mundo é Ereth, uma terra amaldiçoada pelos próprios Deuses que a criaram. Uma terra onde os Nors, os Não-Vivos governam e controlam os Vivos sob as bênçãos de Deuses Vingativos. Uma terra onde os Vivos, ou Shem, são caçados para servirem de escravos, de diversão e até mesmo de alimento para os Mortos.Uma terra onde os Mortos se organizaram em hierarquias decadentes e centenárias, se vivendo em Necrópoles altamente organizadas para favorecer os mortos e torturar os vivos. Uma terra onde os Mortos seguem um sonho, a criação de uma utopia para os não-vivos, onde se completaria o plano divino de vingança: a morte de toda a Criação.

Uma terra também conhecida como…
NECROPIA…”

Cap.1 “Ajuda Fraterna”

Escrito por Nitro (Newton Jr.)

Ele o chamou como se chama a um cão ou a um Krenshar de estimação dos Mordenkais, os Mestres das Lâminas. Porém a criatura não queria vir, estava mais interessada nas centenas de corpos que estavam espalhados por todos os lados. Eles estavam destroçados demais, não dariam para serem Servos-Canibais, e mesmo os Modeladores de Carne não aceitariam esses membros decepados em péssimas condições.

Sir Deiphobus olhava em torno da Câmara de Treinamento e viu o estrago que sua irmã tinha feito às reservas de escravos de sua família. Se seu pai soubesse do que tinha acontecido, seria o inferno tanto para ele quanto para sua irmã. Sorte deles que o velho Barão Ferthus estava viajando em uma missão diplomática para o Imperador, isso daria tempo para concertar o estrago feito por sua irmã. Droga de garota mimada, pensava Sir Deiphobus.

A criatura que entrara na sala de treinamento com Sir Deiphobus continuava examinando os restos do treinamento de Verótika, lambendo o sangue que tingia o chão metálico com um vermelho vivo. Era um monstro grande como um lobo atroz das Florestas Canibais. Andava em quatro patas, ou melhor, quatro braços humanos modelados violentamente para parecerem com patas, as duas dianteiras terminando em enormes garras metálicas, implantadas em seus ossos. O corpo, forte e deformado, estava envolvido em várias tiras de couro e placas de ferro. A face da criatura era uma enorme boca com enormes presas de ossos revestido de metal, compondo uma visão aterradora junto com a enorme placa de ferro cravada em seu crânio e que cobria o local onde deveriam estar os olhos da criatura. A criatura era um Necrophagi.

Sir Deiphobus distraiu-se olhando para a criatura, recém fornecida a ele pelos Modeladores. Os Necrophagis eram excelentes companheiros de Caça aos Vivos, e observando a criatura que os Modeladores de Carne tinham lhe enviado, ele notava uma certa semelhança com sua própria pessoa. O Necrophagi era muito forte e letal, feito com parte da própria carne de Sir Deiphobus, o que garantia total lealdade.

O Necrophagi finalmente olhou para ele, a gigantesca boca cheia de dentes metálicos soltando uivos estranhos, quatro membros musculosos saindo das tiras de couro negro e placas de aço que envolviam o seu corpo musculoso. Um sangue negro e borbulhante vazava das lâminas recém-implantadas e a criatura ainda exalava o cheiro forte das poções de preservação dos Modeladores. Era um Necrophagi magnífico, digno de um Cavaleiro Matadeus como ele, pensava Sir Deiphobus. A criatura fitava-o e voltava a olhar os restos de carne espalhados pela câmara.

Sir Deiphobus podia adivinhar o que a criatura estava pensando. Estava fazendo sua primeira distinção entre as coisas vivas e as coisas mortas. Só que Deiphobus ainda ensinaria à criatura que nem ela e nem ele estavam vivos. Eram Nors, filhos de Ktonor, o Deus do Vazio cujo Olho observa Ereth como um buraco negro devorando tudo que vive e animando tudo que morre. Eram Não-Vivos. A criatura se aproximou de Sir Deiphobus.

___Isso mesmo…__murmurou o Cavaleiro Matadeus, afagando a cabeça deformada e cinzenta do Necrophagi, evitando encostar nas afiadíssimas lâminas que estavam cravadas em seu enorme boca, como uma cabeleira de metal__…eles estão mortos. Eles não servem mais para nós. Agora vá e devore todos estes restos antes que apareça mais alguém…vai!

Obediente, o Necrophagi partiu para cima dos cadáveres e começou a devorá-los com sofreguidão. Sir Deiphobus soltou um suspiro. Mais uma vez tinha que limpar a sujeira de sua irmã, Verótika. Ele sabia que os Magistratos, que regulavam as leis permitidas dentro de uma Necropia, jamais permitiriam um desperdício tão grande de Shems; os vivos estavam ficando cada vez mais escassos em Yzael. Porém, para uma estrela do Necrobol tudo era permitido, principalmente quando se era a principal atacante-mutiladora dos Degoladores Vermelhos, a equipe mais famosa de Yzael e a favorita da Princesa Imaculatta. Verótika tinha que treinar, mas gastar a reserva de escravos familiares com isso era terrível. Ela já não tinha os Refugos, escravos que não serviam mais, para treinar na sede dos Degoladores Vermelhos? Mas não, é claro que Verótika tinha que ser diferente de todo mundo, ela tinha que treinar em casa, aproveitando o fato de que seu pai, o Barão Ferthus estava fora.

“Ele vai ficar uma fera”, pensava Sir Deiphobus sobre o seu pai, com a certeza de que se ele e sua irmã estivessem realmente vivos, o seu pai certamente os exterminaria depois de saber que toda a reserva de escravos da família tinha sido destruída por um capricho de sua filha.

Deiphobus sabia que o massacre dos escravos era um indício que sua irmã estava nervosa com o próximo jogo, a final regional contra os Mutiladores de Messalina. “A desgraçada podia perder”, pensava Sir Deiphobus, observando o Necrophagi que já estava terminando a limpeza do salão de treinamento de Verótika.

O Necrophagi ainda tentava achar mais pedaços de carne morta quando Sir Deiphobus, puxando uma das correntes que se dependuravam na entrada da câmara de treinamento, fez soar os sinos de crânios que chamavam os criados. A sua família possuía apenas criados vivos, usando apenas uma velha Serva-Carniçal como governanta. Os criados vivos eram muito mais expertos que os Servos-Carniçais que a lei da Necropia exigia que fossem usados, mas para evitar problemas, a família mantinha uma Serva-Carniçal como governanta da mansão. E foi justamente Odda, a velha Serva-Carniçal que estava na família a mais de duzentos anos, que entrou, acompanhada de duas criadas shems.

As criadas Shems olhavam aterrorizadas para a sala, mas a presença de Sir Deiphobus as fizeram esquecer dos parentes que pereceram na câmara de treinamento. Um escravo Shem era de total propriedade de seu mestre Nor e as criadas sabiam disso: se o destino deles fora morrer por um capricho de sua dona Nor, esse era o destino desejado pelos Sefiras, os sagrados deuses de Ereth.

Sir Deiphobus se virou para a governanta Odda e disse:

__Vou sair para caçar escravos nas florestas às margens do Rio Theras. Diga à incompetente da minha irmã que se eu não tiver sorte, serão as Amratis da reserva pessoal dela que irei usar para comprar as reposições do nosso acervo. Devo ficar fora por cerca de três dias, e voltarei antes do joguinho dela. Entendeu tudo Odda?

A velha Serva-Carniçal olhou para ele com o seu único olho morto, pálido e cinzento depois de centenas de anos como uma Não-Viva. Os Servos-Carniçais não podiam ser muito inteligentes, mas obedeciam muito bem as ordens de seus mestres. Oda murmurou, sua pele morta se esticando em seu rosto, mostrando partes interiores de sua mandíbula:

__Sim, Mestre Deiphobus…

O Cavaleiro Matadeus pegou sua enorme espada dentada em seu quarto assim como um suprimento de Amratis Negras para o caso improvável de sofrer algum perigo na caçada e saiu. A sua armadura estava bem ajustada em seu corpo, todas as placas devidamente cravadas em sua carne morta, e os espetos metálicos se projetando de suas obreiras ainda muito afiados, desde a última expedição. Colocando o seu capacete de aço, cheio de aberturas circulares, e vestindo a sua armadura e o kilt de couro negro, Sir Deiphobus chamou o seu Necrophagi. A criatura se aproximou sorridente. Sir Deiphobus saiu da mansão de sua família e pegou a sua montaria, o cavalo-carniçal que sua irmã tinha lhe dado no dia de sua ordenação dentro da Ordem Matadeus.

Sir Deiphobus partiu para as florestas que circundam a Necrópole de Yzael. Ele iria sozinho dessa vez, caçar vivos para concertar os erros de sua irmã. Pela primeira vez, Sir Deiphobus iria capturar Shems selvagens não por prazer, mas por ódio. “Vai ser difícil trazer algum vivo”, pensava enquanto disparava com seu cavalo-carniçal, sendo acompanhado de perto pelo ávido e alegre Necrophagi.