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Conto: As façanhas de Aquiles

Dizei-me, ò Musas que habitais as moradas do Olimpo, se já houve entre os humanos dotados de fala exército mais numeroso do que aquele levantado pelos aqueus de belas grevas para combater à força guerreira os filhos de Ilíon, ampla urbe de Príamo. Assim como no dorso do mar revolto tomam corpo, à vontade de Poseidon, vagas descomunais que alquebram as naus recurvas no sopro da tempestade, assim a horda de guerreiros argivos se lançou às águas em suas rápidas naves de muitos remadores a fim de levar homicídio e morte aos Troianos descendentes de Dárdano. E tal como, empurradas com vigor pelo Euro e pelo Noto, açoitam sem piedade estas vagas um alto penhasco, assim os impetuosos aqueus revestidos de bronze açoitavam as cidades da Tróade bem povoada. Eram chefiados, os aqueus, pelo atrida Agamêmnon, rei de Micenas repleta de ouro, rival dos deuses em grandeza e nobreza, semelhante, no olhar altivo, a Zeus, porta-édige, na sabedoria e tenacidade a Atena dos olhos de coruja, justa e poderosa e, no braço armado, a Ares, impetuoso. Assim sobressaia entre os homens e heróis o filho do ardente Atreu, domador de cavalos.

Não menos grandiosos eram, também, os outros reis dánaos criados por Zeus, pois não estava só o filho de Atreu na lide de comandar a empreitada belicosa longe do solo paterno. Auxiliai-me, ò Musas memoriosas, na tarefa de apontar os principais reis porta-cetros que se destacavam na multidão de servidores de Ares que assolava os Troianos, semelhantes à manada de lobos da planície que, incansáveis, rondam e acossam os gordos rebanhos bem nutridos, pois dar nome a todos os soldados da turba, ou mesmo a todos seus guias e chefes, é tarefa por demais lastimosa para um reles poeta.

Entre eles, sem dúvida distinguia-se o loiro Menelau bom para o grito da guerra, vindo da opulenta Lacedemónia, a alcantilada, irmão de Agamêmnon e, mais do que todos os heróis que compunham a multidão de argivos, desejoso de vingar o rapto de sua Helena de belas faces. Acompanhavam-no dois Ájax: o menos alto, couraçado de linho e chefe dos Locrenses era o filho de Oileu; o maior, grandioso filho de Télamon, vinha de Salamina. Aos Cretenses comandavam-nos Idomeneu, pastor de tropas ilustre pela sua lança, seguido pelo mortífero Meríones de mãos firmes. Os Atenienses, prole da fecunda cidade de Palas Atena situada na terra de Erecteu, estes eram guiados por Menesteu, fustigador de cavalos, enquanto os aqueus de Argos e Tirinte das muralhas ciclópicas tinham como chefe o audaz Diomedes, filho de Tideu, bom para o grito de guerra. Nestor, o velho condutor de carros, liderava com sua benevolência e sabedoria aqueles que habitavam a arenosa Pilo; era este, entre todos os Anciãos trazidos até a Tróade pelos finos navios aqueus, o mais honrado pelo rei Agamêmnon, o porta-ceptro. Os Cefalenses, pródigos na arte da guerra, tinham o engenhoso Ulisses, astuto como Hera de olhos de bezerra e similar em prudência a Zeus, pai dos homens e deuses, para comandar suas naus bem carpinteiradas, assim como aos Etólios, habitantes de Plêuron, comandavam-nos de cabeça erguida Toas, filho de Andrémon.

Mas, dentre estes e tantos outros reis argivos, nenhum era comparável em força, habilidade e ardor ao divino Aquiles de pés rápidos, filho de Peleu e comandante dos Mirmídones que possuíam a Ftia e a Hélade de belas mulheres. Tal como o pai de prole numerosa adora, dentre todos os rebentos, o filho que mais lhe honra; tal como o pastor muito rico que, dentre as incontáveis ovelhas em seu cercado, orgulha-se daquela cuja lá negra é mais pura e formosa, pois assim os deuses privilegiavam o rebento de Tétis dos pés de prata, filha do deus marinho Nereu. E bem o sabiam os aqueus quem, dentre eles, era o melhor homem, e por isso lhe renderam justas homenagens e honras nos longos nove anos que durava, à época, o cerco a Tróia bem edificada. Neste tempo, entretanto, não apodreceu a madeira e os cabos de corda trançada dos navios afilados. Tal como as abelhas que descem em negro enxame as colinas para tomar às flores o mel nos vales frondosos da verdejante Frísia, assim as naus velozes e as falanges cobertas de bronze fulgurante dos aqueus se lançaram à guerra funesta contra as cidades bem estabelecidas da Tróade que, empunhando o pique, auxiliavam os Troianos na defesa de seu baluarte ou, comerciando a carne, a lã, o trigo, o bronze e o vinho, abasteciam o povo de Príamo da forte lança. Comandados pelo divino Aquiles de pés rápidos e sob a proteção de Zeus, filho de Crono de espírito astuto, assim os aqueus belicosos saquearam e destruíram doze cidades por mar e onze por terra, lançando ao Hades não poucas almas fortes de heróis e fazendo de seus corpos pasto de cães e abutres. Estimulados pela sagacidade guerreira de Palas Atena de olhos de coruja, montada no carro flamejante com o qual subjuga as fileiras de heróis e os maltrata, e pelo ímpeto combativo do furioso Ares, fustigador de muralhas, os argivos conquistaram e saquearam as divinas Esminte, Cila e Crisa do porto profundo, cidades devotas a Febo Apolo e prestadoras de tributo a Tebas, sagrada cidade de Eécion. Da mesma forma, capitularam a aprazível Lesbos, onde o filho de Peleu tomou a filha do rei Forbas, Diomeda de belas faces, e a escarpada Ciro, cidadela bem defendida de Enieu. Em todos estes lugares, e em outros cujos nomes nem homens nem deuses esquecem, pois foram palcos de horrendos embates entre valorosos guerreiros, aqueus inflamados por Ares combateram sob a égide de Aquiles, trazendo morticínio e desespero aos aliados dos Troianos domadores de cavalos e conquistando valiosos despojos que, na Ágora das naus abicadas na planície do Escamandro, onde montava guarda às portas da Ilíon bem edificada o numeroso exército aqueu, o Atrida repartia eqüitativamente entre reis nutridos por Zeus, assim como o justo rei distribui aos descendentes queridos as cidades, rebanhos e tributos de seus domínios. Em todos os combates que precederam a ira funesta de Aquiles às portas de Tróia, o soberbo filho de Peleu demonstrou em façanhas o valor de seu espírito indômito e o amor dos deuses imortais. Apenas Tebas, praça de sete altas portas e muralhas orgulhosas, permanecia altiva como um baluarte indômito ao pé do verdejante Monte Placo. Andrômaca, filha do rei Eécion de belas palavras, desposara o príncipe Heitor, filho de Príamo de Tróia, e lhe dera um filho: Astíanax. O acordo nupcial selara aliança fraterna entre Troianos domadores de cavalos e tebanos que respiram ardor, mas nuvens negras da tempestade se formaram ao redor do Monte Placo quando Agamêmnon, o atrida, tomou conhecimento de que soldados tebanos, armados de bronze, conduziam carros de guerra na defesa da indomável Tróia. Então o rei ordenou aos arautos de boa voz que anunciassem aos reis e heróis argivos o encontro da assembléia na praça. Deliberou primeiro com o conselho dos Anciãos de grande valor, reunidos junto da nau de Diomedes. Tendo-os congregado, o porta-cetro levantou-se e, com estas palavras, proferiu o desfecho sangrento da sagrada cidade de Eécion:

“- Escutai, meus amigos: como sabeis, as graves ofensas dos tebanos mais uma vez necessitam de reparação. Por duas vezes já oferecemos nosso perdão aos descendentes de Cadmo por terem enviado seus filhos em armas ao combate junto às muralhas dos Troianos domadores de cavalos, e por duas vezes escutei o juramento de Eécion. Mais uma vez, entretanto, as falanges e os carros de guerra dos tebanos levantam pó na planície do Escamandro, e seus arqueiros que ferem de longe povoam as muralhas altas da infatigável Ilíon. De fato, Heitor, filho de Príamo, desposou Andrômaca, filha de Eécion, sob as leis dos homens e aos olhos dos deuses que tudo vêem. Há muito sabeis que o rei de Tebas, homem de grande valor, é um chefe de guerreiros valente e honrado; pois sua valentia e honra em muito superam sua prudência, de modo que não devemos mais esperar por outra de suas promessas vãs e vazias. Por duas vezes, arrasamos as urbes que protegem Tebas e levamos pavor aos Cilícios. Escutem, pois, meu alvitre: a própria Tebas de altas portas deve cair, ou os tebanos continuarão lutando ao lado dos descendentes de Dárdano, levando morte e homicídio aos aqueus de belas grevas. O próprio Zeus, filho de Crono, prometeu-me com um sinal de cabeça que destruiremos Tebas, assim como destruiremos Tróia! E que se levante, dentre toda a assembléia de heróis dánaos, servidores de Ares, homem sábio ou divino augure que desminta esse destino. Mesmo Calcante, filho de Testor, sem dúvida o melhor dos adivinhos, que sabe o presente, o futuro e o passado, mesmo ele não ousaria desdizer o funesto desígnio que Zeus, ajuntador de nuvens, reservou para Tebas de largas ruas e os Cilícios irredutíveis.”

Tendo dito, Agamêmnon sentou-se; o ardor tomara conta dos reis e heróis do conselho. Entre os reis, levantou-se Aquiles.

“– Agamêmnon, pastor de tropas, nós, valorosos Mirmídones, seguimos-te de boa vontade até as portas de Tróia para combater os Troianos e destruir os seus lares, pois os desígnios dos deuses assim o quiseram e se manifestaram em prodígio quando estávamos reunidos para oferecer aos deuses hecatombes perfeitas, na ocasião de nossa partida. Sentamo-nos, agora, em impaciente espera ao redor de nossas naus, e os corações dos valentes Mirmídones se enchem de dúvidas e males, pois são findos nove anos do grande Zeus e as muralhas da sagrada Ilíon não cederam. Como criancinhas ou viúvas, eles lamentam-se entre si, a respeito do retorno. Oferecei-nos, então, uma oportunidade para o combate, e alegremente eles retomarão o ímpeto de Ares em seus corações. Permita que nos lancemos sobre Tebas, a fim de cumprir o destino lançado sobre os súditos de Eécion”.

Ele disse, Aquiles de pés rápidos. E todos os sábios anciãos do conselho aquiesceram, com ânimo. Agamêmnon, rei de guerreiros, declarou:

“- Aquiles, tu que és o melhor dos homens, amado dos deuses, apega-te firmemente ao teu desígnio e lidera os Mirmídones a rudes pelejas contra os Cilícios de Tebas. Arrasa, se precisares, as casas bem constituídas, deita fogo aos estábulos e oficinas, passa à espada os homens e arrebatai em despojo as mulheres e crianças. Não deixará de demorar, agora, a desgraça dos tebanos. Por agora, ide comer e prepara os teus para a expedição. Embarca as lanças bem afiadas, os carros guarnecidos de bronze, os dardos acerados, os escudos que cobrem os homens e os cavalos de pés rápidos. Com a aurora, parte em tuas naus negras, e leva a contenda sanguinária à pátria dos Cilícios, com a proteção e bênção de Ares, fustigador de muralhas.”

Ele disse, o rei dos guerreiros, e todos os chefes e guias retornaram a suas naus, junto a suas frátrias e tribos, cheios de ardor. Quando o Sol se pôs nas profundezas do Egeu, a oeste, e sobrevieram as trevas, os aqueus manejadores de pique em todo o acampamento deitaram-se junto das naus e em suas tendas, aquecidos pela brasa das fogueiras. Os Mirmídones de Aquiles, entretanto, sobrevieram ao sono por mais tempo, em oferendas: degolaram um boi gordo, de cinco anos, e queimaram suas entranhas em sacrifício. Beberam a mistura, sem esquecer as libações, e oraram pela proteção de Zeus, que tudo vê, pela orientação de Atenas, a sábia estrategista das lides da guerra, e pelo ardor de Ares, destronador de reis. Só então, satisfeitos os deuses e as almas dos homens, puseram-se os Mirmídones bons para a guerra a dormir junto às amarras das naus, beijando o mar. Quando surgiu, filha da bruma e de Hiperion, a Aurora de dedos róseos, alçaram-se ao saque de Tebas sob a longa sombra de Aquiles de pés rápidos, igual a um deus entre os homens, altivo na proa da primeira nau rápida lançada ao mar alto.

— Fim da Parte I – Continua…