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Conto: Duas Noites

Sexta-feira, 7 de Agosto

Aqui eu começo minha estranha narrativa sobre os fatos posteriores à minha última caçada.

É terrível o que sinto. Eles tiraram de mim o amor de minha vida. Tudo talvez fosse mais fácil se simplesmente tivessem dado um tiro na cabeça dela. Mas eles fizeram mais. A transformaram num monstro demoníaco. Eu ainda posso ver a luz nos olhos dela se apagando quando a estaca enterrou-se em seu coração. Deus, eu a matei! Sei que fiz o que era certo, mas… por que sinto como se ela me culpasse? Parece que carrego o peso do mundo em minhas costas. Me sinto um covarde. Ao invés de ganhar a redenção eu me tornei paranóico. Desconfio de todos, não vejo mais minha família. Não posso voltar para casa. Seria um erro do qual me arrependeria eternamente, expor meus entes queridos a estes terríveis predadores. Não posso fazer nada. Eles estão por toda parte, arrebatando nossas crianças para as trevas. Não quero perder o único laço com minha humanidade, se ainda o possuo. Cedo ou tarde não vou agüentar a pressão e enlouquecerei. Mas não tenho medo. Ser louco é apenas acreditar em uma realidade que ninguém mais acredita. Isso eu já faço.

Não devo fraquejar. Já fui longe demais para isso. Sou o fogo que vai arder e enviá-los para o inferno. Mas creio ser melhor deixar meus tormentos interiores de lado. Sentimentalismo não vai alertar o mundo da ameaça. E, se você está lendo isso, não vai ter tempo nem para respirar. Eles logo estarão atrás de você, e a informação será sua melhor arma.

A seguir descrevo os acontecimentos da noite passada. Peço, porém, que leia de mente aberta e não me julgue como louco, como eu mesmo acho que estou (como alguém disse uma vez, à noite não existem cépticos). Guarde essa informação como a sua alma.

As noites estão perigosas ultimamente. Ninguém em sã consciência ousa pôr os pés fora de casa em grupos menores que cinco pessoas. Os que ousam são marginais, ou não esperam viver muito. Bem, eu espero viver muito, mas me arrisco o tempo todo. É um paradoxo, mas eu me adapto fácil. Geralmente. Ontem tudo ocorreu muito rápido, e ainda não pus as idéias em ordem ( ei, eu disse que me adapto fácil, não rápido). Não me lembro de tudo em detalhes, mas vou tentar recriar o espetáculo sinistro que me ocorrera. Espero que entenda, pois a noite é bem mais que apenas o fim do dia.

Tudo ocorreu na noite passada. Eu estava na pista de um estranho assassinato no banheiro de uma conhecida casa noturna da cidade chamada Cadafalso. Freqüentada por punks, headbangers e rebeldes em geral, esta boate tem o clima muito pesado. Alguém com um mínimo de bom senso não se sentiria muito confortável em um lugar como esse. Eu desci do carro e passei pela segurança da entrada com facilidade. Eles nem ao menos repararam em minha bolsa, onde carrego meus “apetrechos’’. Assim que pus os pés lá entro, o som forte da música “new metal” invadiu meus pobres ouvidos ( eu realmente odeio este tipo de música ), enquanto o cheiro de drogas rasgava minhas narinas. A casa estava lotada. Demorei para penetrar na multidão e finalmente encontrar os banheiros. Todo o lugar era repugnante, mas a região próxima dos sanitários era ainda pior. Quando entrei, não pude conter o sorriso nervoso quando um calafrio eriçou minha nuca. Era compreensível, afinal eu estava num local onde havia ocorrido um crime bárbaro. Um roqueirinho foi morto, desmembrado, picado e enfiado dentro de um vaso. A polícia descobriu que, estranhamente, o corpo não possuía sangue. Eles não entenderam ocaso, que foi arquivado. A notícia não veio à público. Eu sei porquê. Eles manipularam a imprensa, como manipularam a polícia. Eles manipularam tudo. Que outra explicação você pode dar ao descaso das autoridades?

Bem, continuando. eu vasculhei o banheiro minuciosamente, mas não descobri nada, exceto uma minúscula mancha de sangue entre os rejuntados dos ladrilhos. Sim, eu sei, isso não prova nada. Aquele sangue poderia ser de qualquer coisa. Desde uma lésbica menstruada ( definitivamente desagradável ) até um valentão com o nariz quebrado. Isso para os outros, não para mim. Essa pequena mancha me dava evidência suficiente de que realmente houve um assassinato brutal no Cadafalso. Infelizmente não pude averiguar mais. Neste momento um segurança adentrou a porta. Pela expressão achei que viera me expulsar, mas qual. Ele disse, gentilmente, que havia uma mesa reservada em meu nome, e havia pessoas me aguardando nela. Muito estranho. Não tenho tempo nem dinheiro disponível para jantar fora e, se tivesse, com certeza não seria num local como aquele (sinceramente, me assusta o fato de ter sido localizado tão facilmente. A incompetência não é uma virtude ). O ser humano é curioso por natureza e comigo não é diferente. Surpreso com minha própria decisão, fui ver quem eram e o que queriam as pessoas que me esperavam. Segui o segurança com certa dificuldade através do mar de gente que berrava e agitava os cabelos desgrenhados em absurdo frenesi, alucinados pela música pauleira e pelo álcool no sangue. Tive uma nítida impressão de ter ouvido uma risada macabra em minha cabeça. Apertei o crucifixo em meu peito com tamanha força que uma de suas hastes se partiu. Ajeitei meus óculos e segui em frente, pensando se meus tímpanos sairiam intactos do duelo que travavam com as pedaleiras das guitarrras elétricas. O segurança me indicou a mesa e saiu. Era um canto escuro, encoberto por uma tênue nuvem de fumaça. Pude distinguir três silhuetas imóveis, em pé, e outra sentada. Guarda-costas, provavelmente. Uma sensação de perigo abateu-se sobre mim, um medo primitivo, como se estivesse me aproximando de um predador hipnotizante. Em meu intimo sabia que era algo bem próximo disso. Fiz menção de voltar, mas um dos homens aproximou-se e agarrou meu braço. Ele olhou nos meus olhos e tive a impressão ( a segunda em uma noite., talvez a atmosfera carregada de entorpecentes estivesse me afetando ) de ter visto um pequeno brilho vermelho através de seus óculos escuros. – O chefe deseja vê-lo, companheiro. Ele não gosta de esperar. – ele disse, virando as costas e fazendo sinal para que eu o seguisse. Quando eu me aproximei da mesa, o tal chefe levantou-se e, com cortesia, convidou-me à sentar. Em seguida sentou-se também. Magro e pálido, ele não me pareceu tão ameaçador. Estava muito bem vestido para os padrões do local onde estávamos. Sorrindo para mim, perguntou:

– Então, senhor Jonas, deseja beber algo?

– Como sabe meu nome?- retruquei – O que quer comigo?

Ele sorveu um gole de bebida avermelhada em uma taça sobre a mesa. Vinho? Sangue…? Amaldiçoei-me por não ter traído minha arma.

– Acalme-se, senhor Jonas. Está muito nervoso. Não sou um deles, se é o que teme.- ele disse com tranqüilidade, enquanto retirava uma maleta preta debaixo da mesa. – Quanto as suas perguntas, basta dizer que tenho meios de descobrir as coisas que me interessam.

Olhei em volta. Os três guarda-costas pareciam verdadeiras estátuas, imóveis como estavam. Pude notar que estavam armados.

-Meu nome é Cláudio. E sei do seu trabalho. – seu modo de falar, quase sussurrando em meio a tanto barulho, era um tanto perturbador. – É um fardo pesado para qualquer um carregar sozinho, mesmo que este esteja preparado e conte com muitos recursos, o que não é o seu caso. É preciso vontade de ferro e sangue frio. Você tem sangue frio, senhor Jonas? – perguntou ele, sem me dar chance para responder. – Tem a coragem necessária para puxar o gatilho na hora certa? Para perfurar o peito de uma pessoa? Creio que não.

Não? Deus , eu perfurei o coração dela! Condenei-me ao inferno por isso. Não sei se o faria de novo. Senti o suor escorrer em minha fronte. Eu estava demonstrando muito medo, e isso por si só é um mal imperdoável. Procurei me acalmar e ao menos tentar parecer mais seguro.

– O que quer comigo? – perguntei de novo, desta vez com mais ênfase. Cláudio empurrou a maleta até o centro da mesa e disse:

– Sou um homem condenado, senhor Jonas. Cometi o tremendo erro de me envolver com essa gente. Devo admitir que minha ganância tem grande parcela de culpa nisso. Não nego. Mas a punição que querem me infligir é muito grande em comparação ao meu pecado. Sabe o que eles fazem com traidores? Não? Nem queira saber. É muito assustador.

– Do quê está falando? – perguntei, confuso. Nada estava fazendo sentido, exceto o fato de que Cláudio não parecia mais tão tranqüilo assim. Pude distinguir um certo desespero, ainda que sutil, em sua voz. O que esse homem andara aprontando?

– Estou falando de minha morte! Estou condenado, e não há nada que possa fazer quando a isso. Minha cabeça está a prêmio, e desta noite eu não passo vivo. Vê aqueles três próximos à pilastra? – ele apontou para trás de mim. Virei-me discretamente e vi dois rapazes rindo alto perto de uma pilastra. Tinham uma aparência estranha, mesmo entre os estranhos daquele lugar. Não muito distante deles estava o terceiro, sério e sisudo. Seus olhos pequenos transpareciam toda a lama que deveria haver em sua alma. Suas roupas eram inteiramente negras, contrastando com seus cabelos tingidos de branco e espetados. Piercings e correntes completavam sua imagem, dando-lhe uma atmosfera gótica. Ele me encarou e eu desviei o olhar rapidamente.

– O que têm eles? – perguntei a Cláudio.

-Eles estão aqui para me matar. – foi a resposta. Olhei para os guarda-costa próximos de Cláudio.

-Eles não parecem páreo para seus homens.

-As aparências enganam: quem criou este provérbio era um sábio, sem dúvida. Ouvi dizer que o senhor conseguiu dar cabo de um deles no passado. Um grande feito, senhor Jonas, que jamais irá se repetir. – fez uma pequena pausa. – A menos que aceite minha ajuda

-Ajuda? Como poderia me ajudar?- Cláudio apontou para a maleta à minha frente.

-Passei anos trabalhando para eles. Consegui reunir durante esse período muita coisa que, certamente, será de utilidade para o senhor: fotos, documentos, gravações… Tenho provas suficientes para fazer o mundo acreditar na sua palavra, senhor Jonas.

Senti o meu coração bater mais depressa. Perguntei:

– E por quê não fez uso de todas essas provas e evidências ainda? Pode usá-las para salvar vidas.

O rosto de Cláudio iluminou-se:

– Mas é exatamente o que estou fazendo agora! Estou dando a você a chave para destruir a todos eles. Não percebe? Eu não tenho mais futuro, nem forças para fazer nada significativo. Sou um homem marcado, e minha palavra nada vale. Você, não! Você é agraciado com o grande dom dos tolos: a fé. A fé que move montanhas! Pode ter êxito onde fracassei. – ele empurrou a maleta para mais perto de mim. – Fique com ela.

Apanhei-a e pus sobre meu colo. Levantei-me.

– É só isso? – perguntei. Ele balançou a cabeça que não. Cláudio retirou do bolso uma pequena caixa, que me pareceu muito antiga. Era coberta por veludo vermelho, com alguns detalhes em ouro. Em sua tampa havia a figura, em alto-relevo de um pequeno anjo estilizado.

– Comprei isto de um sacerdote da Igreja na Áustria, há três anos. É uma relíquia sagrada desaparecida há uns três séculos. Dentro dela está guardada uma coisa que irá mudar sua vida para sempre. Sua e de todos os homens. Afetará o modo com encaramos o sobrenatural de uma maneira surpreendente. Com isso, poderá destruir a todos! – ele me passou a caixa cautelosamente, quase que com medo, como se estivesse mesclando arrependimento e alívio. Fiz menção de abri-la, mas desisti diante da censura de Cláudio:

– Não faça isso, seu tolo! Prometa-me que não vai abri-la antes da hora certa! – sem entender direito, concordei. O homem agora me parecia cada vez mais nervoso, diluindo aquela sua tranqüilidade inicial em um mar de medo. Não o conhecia e mal trocamos parcas palavras por dez minutos, mas de alguma forma senti que estava sendo sincero.

– Prometa que não vai abri-la, senhor Jonas, antes da meia-noite de amanhã. É muito importante. Disto depende a utilidade que está caixa terá para você. Se abri-la antes, tudo estará perdido. Será o fim. Terá destruído a única esperança que um dia tivemos. Prometa.

Sem alternativa, prometi. Guardei a caixa no bolso do casaco e apanhei a maleta. Antes de sair perguntei:

– Por quê eu?

– Você é o único que já enfrentou um deles e sobreviveu. Outros não tiveram tanta sorte.

– E por quê está me dando esta caixa? Por quê está confiando em mim?

Ele olhou bem nos meus olhos.

-Não confio. Só estou lhe entregando a caixa por que ela tem de ser aberta amanhã à noite. Estarei morto antes disso. Cuide para que na esteja também.

Enquanto me dirigia à saída lancei um olhar oblíquo para os três homens próximos da pilastra. O mais estranho estava me observando, enquanto os outros dois caminhavam em direção à mesa de Cláudio. Ele estava certo, então.

Entrei em meu carro aliviado por deixar aquele antro de loucos. Enquanto dava a partida, tive a impressão (a terceira da noite, diga-se e passagem) de ter ouvido alguns estampidos secos, como o de tiros, vindo lá de dentro. Não me atrevi a ficar ali, imaginando o que poderia estar acontecendo. Naquela noite dirigi como se o demônio estivesse atrás de mim.

Em casa, tranquei todas as portas e janelas. Apanhei minha pistola e chamei Bob, meu cachorro, para me fazer companhia. Era muito amigável, mas sabia ser bravo na ocasião certa. Ele vivia comigo já há dois anos, e durante esse período revelara-se um companheiro inestimável. Foi presente de Beatriz, e isto o tornava ainda mais especial para mim. Também vigiava minha casa (que, devo dizer, era uma espelunca) e a mantinha segura enquanto eu dormia.

Mas não naquela noite.

Eu iria ficar alerta.

Se Cláudio disse para me manter vivo, não era eu quem iria descordar. Preparei o mais forte café de minha existência, apanhei meu remédio para úlcera e sentei em minha escrivaninha. Pus a arma sobre ela, bem próxima a mim, e olhei para o porta-retratos à minha frente. Na foto, Beatriz e eu abraçados. Ela estava linda com seu vestido azul. Seus olhos eram castanhos e sonhadores. Lembro-me de como estávamos felizes naquela noite: eu a havia pedido em casamento, e ela me disse sim. Quando passamos por um parque, um senhor nos perguntou se não gostaríamos de uma foto. Queríamos registrar tudo o que estávamos sentindo naquele momento especial. Aquela noite foi à última que a vi com vida. Hoje só me resta uma fotografia e a certeza de que jamais serei o mesmo sem ela. Querida, onde você estiver, espero que possa me conceder seu perdão. Eles a transformaram num deles. Fiz o que fiz para que a sua alma encontrasse a paz. Espero que me perdoe, por que eu jamais o farei.

Bob deitou-se a meus pés. Coloquei o porta-retratos no lugar e tentei para de pensar nela. As horas se arrastavam madrugada adentro, mas me mantive acordado. Muito embora as especificações fossem apenas para não abrir a estranha caixa, por precaução não me atrevi a abrir a maleta. Deixei as duas sossegadas em seus cantos. Quando os primeiros raios de sol invadiram a casa atravessando os vidros da janela, senti que era suficientemente seguro dormir: eles não andam durante o dia (embora nada os impeça de enviar seus lacaios para realizar seu serviço sujo).

Assim, deitei-me em minha cama e peguei no sono. Dormi o dia inteiro e, quando acordei, a lua já ia alto no céu. Esfreguei os olhos, levantei e fui ao banheiro. Olhei em meu relógio e me surpreendi ao constatar que dormira quatorze horas (agora eram quase dez da noite). Enquanto comia um sanduíche improvisado com café velho, Bob entrou no quarto com seu prato na boca. Queria comida, obviamente.

-Verei o que posso fazer por você, rapaz.

Fui ao armário buscar a sua ração e percebi que havia mais comida para o Bob do que para mim em casa. Se tivesse tempo, passaria no supermercado no dia seguinte. Bob enterrou o focinho no prato assim que o pus no chão. Deixei meu amigo saboreando sua refeição e fui sentar-me em minha escrivaninha. A caixa ainda estava ali, aguardando a hora certa. Bob passou por ali a caminho do quintal (acredite quando eu digo que o meu cão é um monstro devorador de comida). Verifiquei o conteúdo da maleta; dentro havia exatamente o que Cláudio dissera: muitos documentos, fotos e algumas fitas. Pelo pouco que pude ler, entendi que ele era uma espécie de advogado dos malditos. Mas a inquietação causada pela curiosidade era grande, de modo que deixei a maleta de lado. Olhei a caixa e por pouco não resisti a tentação de abri-la. Fiquei ali sentado, divagando, por uns quarenta minutos. Foi então que resolvi escrever este relato que você está lendo agora. Peguei meu diário e comecei, tentando fazer tudo do modo mais sucinto possível. Aqui, neste exato ponto, parei por um tempo.

Bob estava latindo lá fora, latindo muito. Pareceu-me que estava assustado com algo. Peguei a arma e sai para averiguar. Acendi a luz de fora e desci a escada que dava para o quintal. Tudo estava silencioso, e não havia sinal algum de meu cachorro. Na rua não tinha viva alma.

Nada . Silêncio.

Comecei a ficar assustado.

-Bob! Aqui garoto: – chamei, já temendo o pior. Em vão. Bob não apareceu. Subi depressa as escadas e corri ao quarto. Não havia ninguém lá, como achei que poderia haver. Anotei rapidamente o acontecido no diário.

Acho que estou morrendo.

O sangue está se esvaindo rápido pelos ferimentos que ele me causou. Está sujando este papel. Tudo aconteceu muito rápido: quando me sentei para anotar o desaparecimento de Bob em meu diário, senti um agarrão forte em meu pescoço me puxar para trás. A cadeira tombou comigo, e com um baque surdo caí no chão. Olhando para cima, pude ver o rosto de meu agressor: o homem que estava no Cadafalso, aquele que Cláudio me mostrara, de cabelos brancos e aparência gótica. Ele se pôs rapidamente sobre mim e apertou minha garganta, me sufocando. Pensei que encontraria minha morte naquelas mãos frias. Nunca estive tão certo em minha vida, creio eu.

-Onde está?- ele perguntou. Sua voz era áspera e sibilante, como a de uma serpente asquerosa. Seus olhos eram agudos como a ponta de uma faca. – Onde está a caixa?- ele repetiu.- Onde está?

-Com esforço e quase sem oxigênio, tentei me libertar. Ele apertou mais a minha garganta, fazendo um espasmo de dor percorrer meu corpo. Depois se levantou e me atirou com facilidade contra parede. Com o impacto, algumas costelas minhas se partiram. Eu caí atordoado.

-A caixa! Aquele traidor, Cláudio, disse que a entregou a você! – sua expressão era de ódio. Não respondi. Ele sorriu diabolicamente e veio se aproximando devagar. Cuspi sangue. Sangue escuro.

-Sabe o que fiz com aquele verme?- ele perguntou, com um sádico ar de satisfação. – Empalei-o vivo, e fiquei observando o sangue escorrer bem lentamente pela haste cravada em sua barriga. Depois, com ele ainda vivo, arranquei seus dois olhos e enfiei em sua boca tagarela. Legal, não? Mas não foi só isso… desmembrei-o e o destrinchei como uma galinha. – depois riu estridente e assustadoramente. Senti meu estômago revirar e cuspi sangue novamente.- A caixa!

Apontei para a escrivaninha, trêmulo. Ele virou-se e a viu, entre alguns papéis e a foto de Beatriz, a caixa de veludo vermelho. Seja lá o que ela tivesse em seu interior, era muito importante para eles, como Cláudio dissera.

Enquanto ele estava de costas para mim indo buscar a maldita caixa, retirei a pistola do casaco e descarreguei no desgraçado. Sete tiros, em cheio. Ele caiu sobre a escrivaninha com estardalhaço, quebrando-a. Não se levantou mais, e eu não arrisquei me aproximar. Pus a arma descarregada no chão e suspirei aliviado, mas travando uma luta ferrenha contra a vontade de dormir que repentinamente estava sentindo. Fiquei ali, ofegante e sangrando, por uns vinte minutos, mais ou menos. O corpo do monstro ainda estava imóvel. Levantei-me com dificuldade e apanhei uma estaca de madeira bem afiada em minha bolsa de apetrechos. Isto funcionou contra Fernando, deveria funcionar contra aquele também.

Ouvi os uivos de Bob no fim da rua.

Era ele com certeza; graças a Deus estava vivo.

Aproximei-me do corpo. Estava caído de costas sobre o que sobrara de minha escrivaninha, crivado de balas. Mas nenhum sinal de sangue. Segurei a estaca com as duas mãos e mirei onde achava que seria o coração. Tem a coragem necessária para puxar o gatilho na hora certa? Para perfurar o peito de uma pessoa?” – As palavras de Cláudio me vieram à cabeça. Teria eu a coragem necessária?

Sim!

Golpeei o miserável com toda minha força. Para minha surpresa, ele esquivou-se no exato momento em que atingiria seu coração e pôs-se de pé ao meu lado com uma incrível rapidez, gargalhando debochadamente. Socou-me tão violentamente que pude ouvir o som do meu nariz se partindo. O sangue espirrou em seu rosto e ele o lambeu com sofreguidão. Caí com uma dor lancinante, e tentei me afastar dele me arrastando, mais recebi um chute forte nas minhas costelas quebradas e gritei. Ele me virou de barriga para cima e tomou a estaca de minha mão. Antes que pudesse enterrá-la em meu peito, Bob irrompeu pela porta e saltou sobre o maldito, cravando os dentes em sua jugular. O sangue asqueroso jorrou com abundância. Mesmo ferido, levantei e fui até minha bolsa o mais rápido que minha dor permitia, para procurar outra estaca. Não havia nenhuma; não havia nada ali que pudesse me ajudar. Bob continuava mordendo ferozmente o desgraçado, que se debatia para escapar. Então lembrei-me da caixa e fui buscá-la. O vampiro, num impulso, arremessou meu cachorro para longe. Então olhou em volta, me procurando. Seus olhos estavam vermelhos e injetados. Sua boca estava aberta e ensopada com sangue. Com as presas à mostra, ele emitiu um urro tão grotesco e medonho que senti meus pêlos se arrepiarem. Todos os cães da vizinhança começaram a uivar em resposta. Minha vista ficou escura por uns instantes, suficientes para ele se lançar sobre mim, me batendo contra a parede. Não tive tempo de pegar a caixa. Comecei a ser enforcado, dessa vez com mais força e ódio. Minhas mãos se moveram à esmo e, por puro acaso ou obra de Deus, tocou em uma perna quebrada da escrivaninha. Puxei e madeira com toda rapidez que meu desespero exigia, e antes que pudesse ter meu pescoço partido, cravei-a em suas costas com todas as forças que me restavam. A estaca improvisada entrou fundo, e pude sentir sua extremidade espetando meu próprio peito. Os olhos do monstro ficaram vítreos, e sua expressão mudou de assassina para incrédula. Senti suas mãos subitamente fraquejarem. Empurrei-o e ele caiu, imóvel. Recuperei o fôlego e fui ajudar Bob.

-Bob, amigão, você está bem?- perguntei, mesmo sabendo que ele não me responderia. Passei a mão em seu pescoço e notei que havia marcas de dentes nele. Não havia pulso.- Desgraçado! –, gritei,- Matou meu cachorro! Desgraçado!- minha voz estava embargada pelo choro. Bob jazia morto em meus braços. Ele me salvara a vida.

Fui até o corpo do vampiro e constatei que ele não estava morto, apenas parecia estar paralisado, esforçando-se inutilmente para se mover e emitindo um fraco ruído de sua garganta. Ao contrário dos ferimentos à bala, aqueles causados por Bob e por minha estaca produziam bastante sangue. Nunca achei que coubesse tanto assim num corpo humano, mesmo que este fosse um maldito vampiro. Seus olhos conservavam toda a iniquidade, e pareciam ser agora a única coisa nele que, ao menos vagamente, demonstravam algo próximo da vida.

– Você matou meu cachorro, desgraçado!- eu repetia isso insistentemente. De alguma forma, mesmo paralisado, eu sentia que ele estava zombando de mim. Seus olhos me diziam isso. Meu sangue escorria pelo canto da boca, vindo do nariz fraturado, e pingava no chão. Eu sabia que meus ferimentos me matariam em breve. Mas, acima de tudo, aquela risada demoníaca em minha cabeça era o que eu mais odiava. O maldito estava mesmo zombando de mim! Zombando de mim! De mim!

– Monstro amaldiçoado! Pare com isso!- eu gritava, pondo as mãos nos ouvidos. As gargalhadas aumentavam e ecoavam em minha mente. Até que não pude mais suportar: arrastei-me até a cozinha com enorme esforço e voltei, trazendo um vidro de álcool e fósforos. Deixei um rastro de sangue pelo caminho. Abri o vidro e despejei todo o conteúdo sobre o corpo do vampiro cujo nome jamais descobrirei. Seus olhos demonstravam agora o mais puro horror que eu já vira. Guinchos e sons estranhos saíam de sua garganta rasgada, me fazendo hesitar. Vi o corpo sem vida de Bob ali perto.

Lembrei da horrível morte de Cláudio, narrada com prazer. Lembrei de Beatriz e de todo sofrimento que essa raça do inferno causou a ela.

Então acendi um fósforo e ateei fogo no monstro.

Um estrondo forte se fez ouvir, e labaredas altas se espalharam rápido por seu corpo, crepitando. Ele gritava, gritava…Um grito tão medonho de desespero que, por alguns longos instantes, me arrependi do que fiz. Seu corpo foi consumido pelas chamas com incrível voracidade em pouco mais de um minuto, nada mais restando além de cinzas escuras e fumaça.

( Posso sentir a morte se aproximando. Perdi muito sangue e estou gravemente ferido: acho que uma costela perfurou o pulmão.)

Me arrastei pelo quarto até o telefone para chamar uma ambulância, mas ele estava mudo. Destruído com a escrivaninha.

( Estou com frio e com sono. Se dormir sei que não mais acordo.)

Mexendo por ali, encontrei a caixa. Olhei o relógio: faltavam ainda trinta e quatro minutos para hora combinada .Estaria vivo até lá? Apertei a caixa tão temida pelos vampiros contra contra meu peito. O sangue que brotava de meu nariz e de minha boca encharcaram-na.

( Meu sangue se esvai. E com ele minha vida. Vou ao encontro de Beatriz em breve.)

Entre os papéis espalhados apanhei meu diário e minha caneta. Minha última anotação ali fora alguns minutos atrás, quando Bob desaparecera. Escrevi sobre minha briga com o vampiro.

Hora de abrir a maldita caixa. Retirei cuidadosamente a tampa com o anjo estilizado. Um longo espasmo de dor abateu-se sobre mim, lembrando que meu fim devia andar bem próximo e nada, nem se o socorro chegasse agora, impediria minha morte. Então olhei para o interior da caixa e vi aquilo que era a chave para a destruição dos vampiros. Cláudio tinha razão.

Aquilo ia mudar a minha vida para sempre.

Por Cirilo Lemos