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Conto: Na mansão da Morte

A negociação foi rápida. Assim que Verótika chegou ao Mercado de Escravos, os representantes da Guilda de Abraxas recuaram na sua tentativa de reaver o carregamento de escravos vivos. Verótika chegou a tempo de impedir que Deiphobus degolasse os dois representantes do Mercador Abraxas que estavam exigindo o direito de levar os escravos.

Usando sua influência e a comoção causada pela chegada do time de Necrobol mais popular de Yzael, os dois representantes de Abraxas (dois Verminais obesos e malcheirosos) tiveram que aceitar a perda de todo um carregamento de escravos. A capitã dos Degoladores de Yzael sentia-se feliz com seu irmãozinho: ele tinha conseguido repor as reservas de escravos de seu pai, como ela tinha certeza que ele faria. Ela sempre podia contar com o seu maninho para concertar seus erros.

Além disso, a primeira coisa que ela viu ao chegar à populosa praça do Mercado de Escravos de Yzael foi o belíssimo Mordenkai selvagem que estava em meio aos escravos conseguidos por Deiphobus. Era um espécime raro, um Mordenkai shem e selvagem, que serviria muito bem como parte da Barreira na final do Campeonato Nacional de Necrobol contra os Mutiladores de Messalina. Um Mordenkai na Barreira seria magnífico, e quem sabe traria outra surpresa desagradável para os Mutiladores, como havia sido a performance de Katsuchiyo no ano anterior.

Porém, todo esse bom humor desapareceu completamente quando Verótika notou o modo como Deiphobus tratava uma Shem que trazia em seu cavalo. E pior do que isso – a capitã dos Degoladores de Yzael teria empalidecido se tivesse sangue correndo nos vasos sanguíneos da sua face – a shem era idêntica à falecida filha bastarda de Deiphobus. Verótika, silenciosamente, comandou Katsuchiyo a retornar com ela para a mansão enquanto dispensava os demais jogadores.

Com todos os outros jogadores dos Degoladores de volta para suas casas e com os novos escravos “devidamente” acomodados na senzala da Mansão Codorvero, Verótika estava na sala de jantar, olhando atentamente para Deiphobus e Sati. Katsuchiyo estava sentado em uma cadeira mais afastada em um canto da sala. O novo Necrophagi de Deiphobus devorava os restos do corpo de Malachi, que ainda estava estirado no chão de metal batido da enorme sala de jantar.

Sati olhava tudo aterrorizada. Agarrada no enorme braço pálido de Deiphobus, suas mãos sentiam todas as diversas cicatrizes do guerreiro Nor. Porém ela não conseguia deixar de olhar para Vetórika. A pequena bárbara do Clã da Garra Negra sentia um ódio quase palpável saindo da Nor.

Deiphobus, ignorando completamente a tensão entre as duas mulheres, olhou para o corpo parcialmente devorado de Malachi e disse:

__Que bagunça hein, Verótika? Os Magistratos já estão sabendo disso? Se você cometeu um assassinato sem a autorização deles, só o velho vai poder te tirar dessa, maninha querida. E pelo jeito que anda o humor dele ultimamente, ele vai deixar você apodrecendo na Prisão de Agonistes, com certeza, ahahahaha!

Sem tirar o olho de Sati, Verótika retrucou:

__Eu já tinha feito o requerimento para uma morte por traição à Yzael já há algumas semanas, “querido” irmão. É só levar a prova da traição do imbecil do Malachi, para receber o pagamento por ter cuidado dos interesses do reino. E o que você está fazendo com esse capacete dentro de casa? É horrível ficar ouvindo a sua voz de dentro dessa coisa!

Deiphobus soltou uma meia-gargalhada, e rapidamente abriu os ganchos de metal que prendiam o seu capacete esférico aos enormes músculos do seu ombro. Sati olhou para Deiphobus, curiosa para ver pela primeira vez o rosto do guerreiro. Ela ainda tinha muito medo dele, mas naquela situação, ela se sentia protegida ao lado daquele enorme Nor. Muito mais protegida do que a víbora que a olhava do outro lado da mesa. Até mesmo Neko, como ela acostumou a chamar o Necrophagi de Sir Deiphobus, lhe fazia sentir menos medo do que Verótika.

__Não sou tão bonito quanto o seu namorado, Verótika. Ou será guarda-costas?__ disse Deiphobus.

Deiphobus tirou o capacete e o colocou sobre a mesa com um grande estrondo. Sati abriu a boca, surpresa, e deixou escapar um leve grito. Sir Deiphobus sorriu e olhou para ela.

O rosto do Cavaleiro Matadeus era todo um mosaico de cicatrizes. No lado direito do seu rosto, uma placa de metal cobria parte do crânio até o olho. Era um rosto marcado por batalhas, que expressava força e um certa tristeza. Ele tinha o olhar dos guerreiros mais experientes da tribo de Sati, mas ao mesmo tempo, a profundidade do seu olhar contrastava com o sorriso irônico que esboçava, ao falar com sua irmã Verônica. Ele parecia divertir-se provocando sua irmã.

__E onde está essa prova de traição, maninha? Meu Necrophagi já está quase terminando de devorar o cara. Você quer que eu peça para ele deixar a cabeça, pelo menos?

Verótika tirou algo debaixo da mesa e o jogou na frente de Deiphobus. Era a mão de Malachi, com o enorme anel de rubi messaliniano ainda no dedo indicador. Sati abafou um grito.

__E o que tem isso?__ perguntou Deiphobus, levantando a mão para observá-la mais de perto.

__Esse é um anel messaliniano, sua anta! Essa é a prova do suborno que o desgraçado estava recebendo para fazer com que a gente perdesse a partida final do campeonato. Mas isso realmente me causou um problema, pois estou com um atacante à menos no time, e não confio em ninguém para jogar a final. Ninguém além de você, irmãozinho.

O rosto de Deiphobus se fechou. Sati sentiu medo, ela viu os enormes músculos do guerreiro nor se contraírem, enquanto ele dizia vagarosamente, com uma voz grave e soturna:

__Jogar…necrobol! Perdeu o juízo Verótika? Eu imaginava algo assim, do jeito que você acabou com a nossa reserva de escravos no seu treinamento! Você deve estar completamente descontrolada. Você acaba com a nossa reserva de escravos sem nenhum tipo de permissão especial (e por sinal, o velho vai ficar uma fera quando saber), depois o trouxa aqui sai para repor a besteira que você fez, sou quase morto por um verme kumariano na Floresta Morta, consigo um carregamento de escravos por sorte, e você ainda vem me pedir para voltar a jogar Necrobol?

__É isso mesmo!__ respondeu Verótika de maneira desafiadora.

Sir Deiphobus se levantou e segurou o braço de Sati.

__Vamos minha Devarim, vamos para o meu quarto antes que você tenha que presenciar mais uma cena de violência.

Verótika se levantou também e gritou:

__Espere um pouco irmão! Ainda não terminamos. E que história é essa de devarim? Essa tripinha aí é sua devarim? Desde quando uma Shem miserável como essa condiciona a existência de um Matadeus?

Deiphobus sacou a Mutiladora, a gigantesca espada que carregava em suas costas e colocou a ponta no pescoço de Verótika. No mesmo momento, Katsuchiyo sacou a Kumarblade e colocou a ponta da espada no pescoço de Sir Deiphobus. Deiphobus girou a empunhadura da Mutiladora e desferiu um golpe em direção ao pescoço de Katsuchiyo, que o aparou com a Kumarblade enquanto sacava a Katana que levava na cintura, atacando o lado direito de Deiphobus. O cavaleiro Matadeus segurou a katana com a sua mão, o que a cortou profundamente, espirrando seu sangue negro por todos os lados. Com um movimeno repentino, Deiphobus empurrou a Kumarblade para o lado com sua Mutiladora, e chutou de baixo para cima, com seu pé direito, o queixo quadrado de Katsuchiyo. O samurai recuou alguns passos, recuperou sua pose de combate, e partiu para cima de Deiphobus.

__CHEGA KATSUCHIYO!__ gritou Verótika. O ex-samurai parou imediatamente. Deiphobus apertava sua mão cortada e girava a Mutiladora em sua outra mão, pronto para o combate. Assim que viu que Katsuchiyo havia parado, apontou a Mutiladora para Verótika e disse:

__Mana, modere a sua linguagem comigo. Você pode ser a estrela daquele “timezinho” desgraçado, mas aqui dentro você ainda é a minha irmãzinha chata. Não se esqueça que eu sei muito bem quem contou para os Magistratos sobre a minha filha “bastarda”. Esta aqui é a minha devarim sim, e o seu nome é Sati, e ela vai morar com a gente, a partir de hoje. E se você encostar um dedo sequer na minha devarim, não vai sobrar nada para o meu Necrophagi comer depois, estamos entendidos? E você sabe que a violência não é algo novo na nossa família…

Verótika apenas olhava, mordendo os lábios. Deiphobus foi saindo da sala levando Sati pelo braço. E antes de sair, ele completou:

__E nada vai me fazer voltar aos Degoladores de Yzael, maninha! Dessa vez você tá sozinha!

“Isso é o que você acha, maninho” pensou Verótika, com um leve sorriso nos lábios. O Necrophagi de Deiphobus havia acabado de devorar todo o corpo de Malachi, e depois de se virar para ela com um ar de reprovação, saiu atrás de seu mestre.

__Vamos, meu caro samurai. A noite ainda nos trará alegrias.__disse Verótika, enquanto segurava Katsuchiyo pelo braço e o levava para seus aposentos.

* * * *
O silêncio da noite na Mansão dos Codorvero era apenas interrompido pelo barulhos estranhos feitos pelo Necrophagi, deitado ao lado da cama de Deiphobus. Sati estava deitada no chão, em cima de um colchão de palha que Deiphobus havia lhe dado. O guerreiro nor tinha lhe dito que ele arrumaria um quarto para ela futuramente, mas que nesses primeiros dias seria melhor que ela não ficasse sozinha na casa, não antes de Verótika aceitá-la como devarim. Deiphobus disse-lhe que iria agora entrar no viriath, que era o modo como os Nors recuperavam as energias e seus corpos – uma espécie de coma noturno auto induzido onde a energia de Ktonor, o buraco negro dos céus de Ereth, era absorvida pelos corpos sem vida dos nors e os regeneravam. Ele ainda lhe disse que não o acordasse durante o viriath, pois ainda estava muito fraco por causa do combate contra o Verme kumariano. Além disso, no dia seguinte, ele teria que reportar o que aconteceu aos seus superiores, e também iniciar a organização de um esquadrão de caça a Primevos, para ver se existe mais contaminação primeva na Floresta Morta que circunda Yzael.

Porém Sati não conseguia dormir. Tudo era muito novo e muito estranho para a bárbara do Clã da Garra Negra. Ela estava agora na cidade dos mortos, na Superfície, nos locais amaldiçoados pelos anciões de sua tribo. Sua mente estava repleta de imagens terríveis, a cidade cheia de mortos-vivos e nors, monstros andando pelas ruas, vivos escravizados carregando mortos, como se fossem animais. Ela mesma viu crianças zumbis devorando partes de corpos humanos, como se estivessem comendo guloseimas. E os prédios da cidade, feitos com ossos humanos e caveiras. Toda a cidade exalava morte, e a mansão de Sir Deiphobus não era diferente.

Mesmo assim, ele havia salvo sua vida diversas vezes. Sati olhava o enorme nor deitado em sua cama. Ele não respirava, estava completamente imóvel, como se estivesse morto. Correção, ele estava realmente, completamente morto.

Vagarosamente, a enorme porta de ferro do quarto se abriu. Sati se assustou e se levantou assustada, e olhou o corredor. Um vento frio entrou pela porta, mas a escuridão da casa não permitia ver nada além do quarto. Ela teve a sensação de que um vulto se afastava da porta, mas sua atenção se voltou para o Necrophagi, que havia levantado sua cabeça e olhava em sua direção. Bem, ao menos parecia olhar, pois como tinha uma placa de ferro no lugar dos olhos, apenas a mudança de direção de sua cabeça indicava que ele estava acompanhando todos os movimentos de Sati. A menina, vendo a porta aberta, começou a andar em direção à ela; seja por sua curiosidade feminina ou por puro instinto. Necro começou a se mover, mas Sati se virou e disse:

__Espere “Necro”. Fique aqui com seu mestre.

Necro, que era o nome que Sati havia dado para o Necrophagi, continuava “olhando” para ela. Sati tremia por dentro, ela não sabia se tinha ganho a confiança da criatura. Mas, para a sua surpresa, Necro se deitou novamente, ainda atento aos movimentos da jovem bárbara. Sati suspirou aliviada e, vagarosamente, saiu do quarto.

Uma outra porta se abriu, no fim de um enorme corredor de metal escuro. Sati caminhava silensiosamente, com medo e desconfiança. Ela chegou até a porta e viu que esta dava para a enorme escada que ia para o primeiro andar da mansão. Do alto da escada ela pôde ver que a enorme porta de entrada também estava aberta!

“Binah deve estar olhando por mim”, pensou Sati. Depois de olhar para os lados, desceu correndo pela enorme escada, chegou até a porta principal de entrada da mansão, e saiu para as ruas de Yzael. Se ela tivesse se virado para trás em sua fuga, poderia ter visto Verótika sorrindo e fechando a enorme porta de metal da Mansão dos Codorveros.

_Agora, menina, quero ver se você dura uma noite nas ruas de Yzael…__ murmurou Verótika. A capitã dos Degoladores suspirou. Sem essa estupidez de devarim, Deiphobus seria facilmente convencido à participar da final do campeonato. Atrás dela, Katsuhiyo apenas a fitava, silencioso como a morte.

(continua)