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Conto: O Caminho do Mal

“O ano de 1245 foi o ano de minha morte.
Mas não de minha morte por completo.
Só meu lado bom foi quem morreu…”

Na minha juventude caminhei por essas terras, entre os homens mortais e os demônios.Vagava de cidade em cidade cruzando estradas, buscando um caminho e principalmente uma razão para minha vida. Não tinha medo da morte e já havia me deparado com ela diversas vezes. Eu era um garoto estranho em cujas veias corria sangue profano. Minha juventude foi atribulada e perigosa. Não tive um pai, nem um guia, nem um mestre que pudesse me aconselhar nos momentos de dificuldade, quando o tormento de ser o que eu era me abatia. Mas mesmo assim sobrevivi a mim mesmo. Foi assim que me tornei forte. Venci a mim mesmo antes de tudo.

No outono de 1240 eu cheguei àquele lugar estranho. As folhas caiam com os ventos frios do sul. Foi a primeira vez que eu a vi. No meu coração só havia o desprezo pelo povo que me renegou e por aqueles que me temiam, mas ela fez tudo ficar diferente. Eu aprendi.

Chegou o inverno e depois o verão. Os dias passavam e eu não queria mais sair dali. Queria sua companhia para toda a eternidade. Fomos para longe juntos. Longe dos homens, porém não longe o suficiente.

Numa noite sem lua eles vieram. Suas tochas iluminavam o suave véu escuro da noite, mas eu não pude vê-los chegar. Brandiam suas armas contra mim, mas não me encontraram. Então a fúria daqueles bárbaros se voltou contra tudo que eu mais amei nesta terra. Eles levaram-na. Num pátio cheio de olhos raivosos uma grande fogueira foi montada e as chamas devoraram sua vida e com ela também se foi um pedaço de mim. O ano de 1245 foi o ano de minha morte. Mas não minha morte por completo. Só meu lado bom foi que morreu.

Escondi-me em um bosque escuro. Numa floresta escura nas profundezas de meu coração. Ela se foi.

O sangue que corre em nossas veias não pode ser negado mesmo que nós o desprezemos. E nas minhas veias corriam um sangue maligno e rancoroso, cheio de fúria e destemor, que durante minha juventude me vencia, e ela me ensinou a dominá-lo. Mas então eu esqueci tudo que aprendi e uma única palavra dominou meus pensamentos naquele momento: vingança.

Esses foram meus primeiros passos no caminho do mal.

Caminhei na escuridão que não me incomodava até que avistei uma luz ao longe. Era o antro onde os vermes se escondiam e confraternizavam o sucesso da minha ruína. O som surdo da pancada que abriu a porta de madeira chamou a atenção de todos. Foram poucos que puderam ver a fúria da lâmina de minha espada reluzindo ao brilho bruxuleante das tochas antes de morrer. Mais de vinte corpos jaziam aos meus pés quando terminei aquela chacina. Depois o fogo consumiu o prédio de madeira que eu transformei em túmulo.

Banhado em sangue e com um brilho insano nos olhos entrei no vilarejo que exalava um cheiro forte de medo. Minha espada, instrumento de minha fúria mórbida era arrastada pelo ladrilho fazendo um barulho irritante. Além deste som, o completo silêncio.

“Demônio”- foi assim que me chamaram. Pois talvez eles agora tivessem razão…

Fechei meus olhos e quando reabri-los pude ver os 30 homens que estariam mortos em alguns instantes, armados com pás, enxadas e pedaços de madeira ao meu redor. Era patético afrontar minha fúria com aquilo!

Mais corpos estendidos ao chão e o cheiro forte de sangue no ar.

E era essa a trilha que eu deixaria em meu caminho por muito tempo.

– Trecho extraído do diário de Daeled Feozar Sagro, segundo capitão das legiões de Mel-Havertzs