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Conto: O Libertador – parte 2

Se o seu precentimento fosse verdade, então agora restava apenas ele do bando dos “Vingadores Eternos”. O nome sempre suou idiota para ele, mas Taurgrus dizia que dava impacto e chamava a atenção. Engraçado pensar nele agora, ele, que fora o primeiro a morrer após o grupo ter se desfeito. Kiéferon suspeitava que o responsável por isso tenha sido Haldamonn, o necromante, o primeiro e maior inimigo do grupo. Depois foi a vez de Ghurdagrimm morrer nas garras de Shaudenkallas, o dragão. Kiéferon sabia que não deviam ter poupado um dragão, principalmente um dragão vermelho. Ao que parece Shaudenkallas emboscou um grupo de mineradores anões quando soube que este era liderado por Ghurdagrimm. Mielikit teve a morte mais estúpida que uma ladina poderia ter: foi pega por uma armadilha de lanças envenenadas.

Poucos são os aventureiros que podem morrer de velhice, e Kiéferon Namantallas não queria ser o único de seu grupo a morrer assim. Esperava que sua irmã e seu cunhado também podessem desfrutar de anos tranquilos no final da vida. Mas há duas noites atrás ouviu o chamado desesperado de sua irmã acordá-lo no meio da noite, e há duas noites que Kiéferon não consegue dormir.

Os boatos de que uma horda de goblinóides unidos avançam sobre Lamnor parece absurdo a princípio, mas ainda assim iria checar como estava indo sua irmã e suas sobrinhas.

Passar pela cidade de Khalifor não foi o problema, porém cada vez que avançava em direção a Lenórienn seu coração ficava menor e mais apertado dentro do peito. Vilas destruídas e campos fumegantes cheiravam a carnificina e massacre indiscriminado.

***

Aproximou-se da floresta onde ficava Lenórienn no meio da noite. Seu coração doia pelo medo de qual teria sido o destino de sua cidade natal. Apurou os ouvidos mas não pode pressentir nada a não ser uma forte tristeza vinda de todos os cantos. As árvores pareciam chorar com uma dor inigualável. Entrou a passos leves e lentos enquanto ainda tentava se lembrar da trilha secreta.

Alguns minutos depois a encontrou, exatamente como se lembrara, porém um pouco mais sombria e assustadora. Ficava no leito de um corrego que há muito já secara, e que correra na parte mais baixa de uma depressão. Na parte mais alta, Kiéferon podia observar toda a trilha por quase um quilômetro, e era noite. Ouviu ruídos então, vindos em sua direção, como se tivessem saído da cidade. Iniciou a descida, mas então pode perceber que eram vozes guturais, e conversavam em um idioma que ele não entendia. Subiu novamente a elevação e escondeu-se atrás de uma pedra, esperando que os donos das vozes aparecessem.

E logo surgiram, virando uma curva. Eram criaturas altas e peludas, com corpos robustos, fortes e brutos. Vestiam armaduras desconexas, com partes élficas misturadas a placas de metal mal forjadas e armaduras humanas. Os rostos eram de um feitio grosso e cruel, com dentes escancarados para fora das bocas. Olhos amarelados e narizes abertos como de porcos.

Bugbears.

Mas o que diabos tais vís criaturas faziam na floresta de Lenórienn? Iria perguntar depois, se alguma delas sobrevivesse. Contou um grupo de quinze, logo, poderia ser que permitisse a um dos feridos continuar vivendo.

Deitou a parte superior de seu corpo sobre a pedra em que estava escondido, e sacou duas flechas de sua aljava. Colocou-as lentamente no arco enquanto sussurrava palavras arcanas ensinadas pela sua irmã.

As flechas voaram silenciosas e atingiram a garganta e a boca do último Bugbear do grupo, que caiu morto. O resto da companhia seguia fazendo um barulho considerável, de modo que não perceberam a queda de seu companheiro.

Kiéferon esperou o momento certo para o próximo abate, e quando o grupo já havia passado por ele, disparou mais duas flechas. Estas atingiram o meio do crânio dos dois últimos membros do grupo, mas desta vez os outros perceberam a queda.

O caos criou um alvoroço entre eles e todos se jogaram no chão, esperando o próximo ataque. O elfo riu de seu esconderijo. Amadores estúpidos. Com certeza os boatos eram falsos. Criaturas tão ignorantes jamais iriam derrubar Lenórienn. Disparou mais uma flecha, e errou de propósito, apenas para revelar a sua posição para eles. Três deles subiram a encosta com dificuldade devido ao seu tamanho desproporcional. Kiéferon guardou seu arco nas costas e sacou de sua Sliraden, a lâmina da Rosa.

A espada fora um presente do grande mago Medalzar de Triumphus, por ajudá-lo a sair da cidade certa vez. Possuia esse nome pois a parte do cabo que separa a lâmina da mão do seu portador fora esculpida em prata na forma de uma bela rosa.

Desceu correndo a encosta e dançou com sua espada pelos bugbears, que nem viram de onde veio o ataque, somente perceberam que agora já estavam mortos. Os corpos desceram rolando enquanto Kiéferon passou por eles e se escondeu na mata.

***

O líder dos bugbears estava surpreso. Tinha certeza de que todos os elfos da floresta haviam sido mortos, afinal, esta era a ordem de Thwor Ironfist, e não havia no mundo louco que desafiaria seus comandos. Porém pareciam estar de frente a um grupo de ataque élfico bem treinado e cordenado. Roxar ergueu a voz e bruniu:

-Separem-se e encontrem estes elfos malditos!

Logo os bugbears que restaram levantaram-se correndo e partiram para dentro da mata, indo um em cada direção. Roxar sacou de uma grande maça e ficou esperando na trilha, aguardando a aproximação de algum elfo metido a besta. Entretanto, logo se viu sozinho, e a floresta calou-se sobre ele. Quanto mais o silêncio se alongava, mas os nervos do Bugbear se tencionavam.

Então ouviu som de aço se cruzando algumas vezes, e um urro de dor.

***

Tudo ocorria do modo esperado por Kiéferon. Separados na floresta, nenhum deles teria chance contra um mestre do arco tão bem treinado quanto ele. O primeiro monstro a encontrá-lo ainda opôs alguma resistência, mas assim que o matou voltou para dentro da mata.

Do alto de uma árvore pode ver um de seus aliados aproximar-se do corpo caído, e assim que fez menção de um grito, uma flecha perfurou-lhe a garganta, silenciando-o para sempre.

Se o elfo conhecia bem esta floresta (e ele passara mais de cem anos nela) sabia que mais lá embaixo havia um lamaçal, e se os bugbears fossem para lá, as coisas seriam mais difíceis, afinal, poucas árvores e com copas ralas não são o melhor esconderijo para ele. Tinha de faze-los retornar a trilha. Saltou de galho em galho, de árvore em árvore, até passar mais a frente de um grupo de três outros bugbears.

Tirou uma longa corda da mochila e amarrou uma ponta em seus pés e a outra em um galho forte. Depois, bem abaixo dele, deixou seu chapéu cair levianamente, e esperou.
O trio parou ao perceber o gorro élfico, e aproximou-se lentamente. Pararam em volta dele e então um deles falou:

-Parece que o nosso amigo perdeu o chapéu.

-Talvez tenha perdido mais do que isso, vamos nos separar e procurar o corpo.Quem sabe ele já não foi encontrado por alguém antes de nós?

E antes que podessem se separar, o elfo saltou da árvore. De cabeça.

A corda esticou-se em uma fração de segundos, e Kiéferon aproveitou esse tempo para desenhar um arco com sua espada e cortar os três de uma única vez.
A corda o puxou de volta, e então desceu novamente. Quando esteva próximo ao chão o elfo cortou-a e caiu de pé, entre os corpos sem vida.

***
E assim foi. Enquanto Kiéferon voltava a se divertir como nos bons tempos, Roxar ficava cada vez mais nervoso. Já tinha um bom tempo que enviara seus comandados em busca dos elfos, e não tivera nenhum sinal deles. Sem nem mesmo exitar, virou as costas e voltou correndo para a cidade em ruínas. O resto dos bugbears deveriam ser alertados quanto a esse batalhão perdido.

(continua)