Categorias
Contos

Conto: O Libertador – parte 3

Ruínas e cinzas enchiam os olhos de todos aqueles que adentravam os outrora orgulhosos portões de Lenórienn. Torres e cúpulas ainda fumegavam do incêndio que seguiu-se da queda da cidade. Batalhões de Bugbears e Hobgoblins iam e vinham pelas avenidas, levando corpos vivos e mortos, que serveriam de alimento e mão-de-obra escrava. Pelos destroços das muralhas, cabeças dos guerreiros que lutaram bravamente para resistir ao avanço da recente Aliança Negra foram erguidos como um anúncio contra todos que se oporem ao novo general, Thwor Ironfist. Na praça central da cidade, estava a cabeça de ninguém menos que o regente de Lenórienn, Khinlanas.

Gruvar adentrou estes portões junto de mais dois Hobgoblins, e trazendo três menininhas elfas idênticas. As meninas choravam, tremiam e tinham de ser arrastadas brutalmente pelos monstros. O capitão hobgoblin deu comando para que elas fossem levadas para junto dos outros escravos, e foi em direção da concentração das lideranças da nova força militar de Lamnor.

Entrou no palácio semi-destruído, e foi em direção ao salão que fora transformado em sala de guerra temporariamente. Lá, vários lideres guerreiros aguardavam para o início da reunião. Se preparavam para o novo movimento da recente Aliança Negra: A destruição de Remnora.

Sawavu, um dos mais bravos hobgoblins, estava de pé em canto escuro do salão. Grumar, líder do poderoso vagalhão Ogro, estava sentado ao seu lado. Um goblin enormemente gordo e recém-chegado chamado Bragendar também estava lá. Viera oferecer a lealdade de sua tribo à Aliança e à Thwor, e agora teria sua chance de faze-lo.

E de pé, de costas para a porta, do outro lado do salão, observando o movimento da cidade estava um enorme Bugbear, com uma longa cabeleira vermelha, e uma presença que enchia todo o cômodo.

Thwor Ironfist.

Gruvar sentou no chão. Como seu general não poderia estar ali para representar os hobgoblins (Havia sido morto na batalha final contra os elfos) ele representava sua raça no conselho de guerra.

Sem se virar, o já lendário general Bugbear começou a falar, e sua voz preencheu todo o salão e fez com que os presentes ficassem em um silêncio maior do que era possível:

-Minha parte do trato está cumprida, Gruvar e Sawavu. Seu povo agora está livre dos malditos elfos que durante séculos os incomodaram e mataram. Agora é hora de provarem sua lealdade ao nosso trato e anexarem suas tropas à Aliança Negra, e partirmos para atacar a cidade de Remnora.

-Das tribos sob meu comando terá total lealdade, Thwor.-Respondeu Sawavu olhando diretamente para Gruvar, como se lançasse um desafio.

-Meus hobgoblins são seus soldados, general, e minhas armas são suas.

Ironfist virou então o rosto por sobre o ombro, na direção dos líderes ali reunidos.

-Ótimo. Agora vamos planejar a queda de Remnora…

E então um bugbear entrou esbaforido pelo salão, gritando o nome de Thwor à todos pulmões.

-General, General, Fomos atocaiados! Um destacamente de elfos sobrevive na floresta, e destruiu trinta de meus soldados! – (o que é, percebam, uma grande mentira, já que seu destacamento possuia apenas quinze bugbears novos e mal treinados.)

Thwor lançou um olhar duro para Gruvar, mas falou calmamente.

-Achei que tinha ordenado a morte de todos os elfos desta floresta que não seriam feitos de escravos, Gruvar. O que houve?

Gruvar sentiu seu orgulho ferido e rapidamente se levantou do chão em que estava sentado.

-Alguém está mentindo aqui! Um batalhão de elfos não passaria escondido assim de mim! Isso eu asseguro a você, general, ou a qualquer um deste salão!

O general bateu com o punho cerrado sobre a mesa que continha os planos e mapas para o cerco de Remnora.

-Basta! Um batalhão de elfos vagando por estas florestas podem atrapalhar os planos da Aliança. Não importa quem está ou não mentindo, isso precisa ser averiguado! Gruvar, reúna seus soldados, e leve Roxar com você! Só volte quando este batalhão estiver destruído, ou então e melhor nem voltar, entendeu!?

Gruvar acenou com a cabeça e abandonou o salão.

Sawavu deu um leve sorriso.

-Sawavu-Thwor então se virou para ele-Você comanda os hobgoblins no cerco!

***

Gruvar estava tão seguro que aquele tal batalhão não existia que não trouxe mais do que cinco hobgoblins, todos de sua extrema confiança. Kinvardaq, Algernsaru, Mortak, Kallicar e Quoor. Além destes, Roxar o acompanhava, guiando-o até o local da emboscada.

Chegaram à trilha e Roxar desembestou a contar o ataque, de seu modo, é claro. Mas Gruvar não estava prestando atenção. Em sua tribo havia um poderoso druida humano que durante muito tempo impós o medo a todos, sendo tratado como Grande Rei Supremo. Esse homem, Melanus, ensinara muitas coisas sobre as florestas para Gruvar, para que ele se torna-se o novo líder e guardião da natureza. Não que o hobgoblin fosse um exemplo de ambientalista, mas era fato que ele respeitava a natureza e sua ancestralidade, afinal, sabia como ela era poderosa e perigosa quando provocada.
Atentou as marcas no chão e contrariou Roxar:

-Vocês não lutaram ferozmente e em menor número. Ao primeiro sinal de perigo vocês se jogaram no chão tentando se proteger de flechas!

Roxar rosnou alto e avançou em direção à Gruvar, mas cinco fortes hobgoblins deteram seu avanço.

-Então eles desceram sobre vocês… Não, ele desceu sobre você…-Gruvar acompanhava pegadas tão leves que poderiam ter sido marcadas pelo vento -Passou por vocês, seria mais apropriado. E seus comandados o seguiram até dentro da mata.

Gruvar entrou sozinho, enquanto seus hobgoblins rosnavam para Roxar. Ele encontrou os corpos abatidos pelos elfos, um a um, espalhados pela floresta. Voltou para a trilha com um dedo acusador apontado para Roxar:

-Seu grande mentiroso! Vocês foram atacados por um único elfo, e ele, sozinho, dizimou todo o seu destacamento. Eu devia reportar isso a Thwor para que ele tomasse as devidas medidas…

***

Aquilo seria o mais próximo que Kiéferon chegaria de Lenórienn. Viu a cidade toda destruída enquanto se escondia na copa de uma árvore. Seus olhos verteram lágrimas e seu coração se encheu de rancor ao ver a cabeça do regente Khinlanas presa em um mastro no centro praça principal.

O medo em seu coração aumentou ainda mais, e sem esperar nem um segundo além, partiu para o Vale das Macieiras. Quase um dia depois alcançou a trilha secreta que levava até o Vale, lar de sua irmã. Passou tranquilamente pelo córrego e então pode vislumbrar a casa que ele mesmo ajudou a construir. Estava inteira, e saia fumaça da chaminé. Kiéferon sentiu um peso abandonar seu coração e correu ansioso em direção à casa. Entretanto, ao se aproximar um pouco mais sentiu um cheiro estranho no ar e estancou o passo. Parou por alguns segundos tentando adivinhar o que seria aquilo, e passou a andar lentamente, em passo de gato, a espreita do pior. A sombra já crescerara em seu coração, e um misto de ansiedade e medo pertubava sua mente.

Quando aproximou-se da casa pode identificar o cheiro melhor. Era carne assando.
Olhou furtivamente pela janela da cozinha e pode ver dois hobgoblins mechendo um caldeirão no fogão à lenha. Viu com assombro um braço levantar-se da panela, puxado por uma grande colher de pau.

-Carne de elfo assada é sempre melhor! –Disse um deles –Eu quero a perna, tenra e suculenta!

-Pode ficar, tem muito osso! Eu prefiro o pei…- E então sua fala foi cortada por uma flecha que rasgou sua garganta e foi parar presa na parede atrás dele. Antes que o outro pudesse pegar em arma alguma, uma flecha destruiu-lhe a mão direita.

Com o coração cheio de ódio, Kiéferon saltou para dentro da cozinha e andou lenta e cruelmente na direção da criatura. Deixou o arco cair e sacou de sua Sliraden e puxou-o pelo pescoço. Antes que podesse cortar a garganta dele, o hobgoblin jogou-se de joelhos no chão pedindo misericórdia:

-Não fui eu quem matou estes elfos! Eu apenas fui mandado aqui para cuidar da casa e impedir que outros a tomassem!

O elfo ergueu a sombrancelha direita e perguntou:

-Do que está falando?

-Capitão Gruvar, Gruvar, foi ele quem matou o humano e a elfa!

-Haviam três crianças, meninas. O que foi feito delas?

-Gruvar as levou para serem escravisadas em Rarnaakk! Poupe minha vida, poupe minha vida!

Gruvar. Este nome agora estaria para sempre gravado em sua mente. Se este covarde estiver falando a verdade, havia alguém responsável que deveria pagar. Se estivesse mentindo, não havia mais nada a perder, afinal, toda a sua família fora morta, com exceção apenas das suas sobrinhas, que precisariam de proteção. Não podia se arriscar, mas não havia outro modo, já que entrar em Lenórienn seria suicídio.

-Vá, e avise a este tal Gruvar que Kiéferon Namantallas o aguarda no Vale das Macieiras.

(continua)