Categorias
Contos

Conto: O Libertador – parte 4

Bem, a verdade é que Gruvar tinha ordens de só retornar a cidade quando tivesse exterminado todos os elfos daquele bando. Para sua sorte, acabou descobrindo que se tratava de apenas um. Seria isso uma coisa boa ou ruim, afinal?

Não podia voltar, mas não havia se carregado de mantimentos para sair em caçada por tempo indeterminado. Acabou mandando que Quoor voltasse até a cidade e buscasse as provisões.

E o Hobgoblin obedecia as ordens prontamente, até ser abordado por um soldado raso ofegante e de mão atada:

-Quoor, Quoor, Aonde está Gruvar?

Quoor o empurrou e ele caiu sentado.

-O que quer com Gruvar, seu verme?

-Um elfo, um tal Namantallas, o desafia, disse que o espera no Vale das Macieiras!

-Idiota! Você era responsável pela guarda do vale! Sabia que ele dá passagem para a parte posterior da cidade, logo a mais desguarnecida? Sabia também que lá um pequeno número de elfos pode conter um grande contingente devido a sua estreita passagem? Eu devia matá-lo agora mesmo!

-Oh, não! Piedade, Piedade!

Mas Quoor já não estava mais ouvindo. Se este elfo passou pela cidade ou mesmo a contornou sem grandes problemas, então provavelmente foi ele quem acabou com o bando de Roxar.

Reuniu o resto das coisas, conforme a ordem de Gruvar, e partiu apressado ao seu encontro.

***

-Então nosso amigo elfo se revelou, não é?

Quoor acentiu com a cabeça.

-E aquele soldado idiota não falou de nenhum outro elfo, e foi mais sincero que Roxar.

-Ele me quer, por algum motivo, e isso será nossa arma…

E então Gruvar levou seus comandados em direção ao Vale das Macieiras.

***

Kiéferon sabia que os hobgoblins iriam tentar enganá-lo, e já estava preparado para isso. Posicionou-se entre as pedras da montanha que cercava a passagem, de uma posição elevada. Esperou lá por quase dois dias, e então viu cinco figuras encapuzadas passarem desajeitadamente pela trilha. Poderia derrubá-los agora, mas sabia que por algum motivo, o tal Gruvar não estava ali, e que eles tentariam emboscá-lo. Por isso, deixou passá-los e seguiu-os por entre as pedras.

Os encapuzados se aproximaram da saída da trilha e logo pararam. Conversaram algo que o elfo não pode escutar e sacaram tochas de seus mantos. Era noite, tarde da noite, na verdade, mas Kiéferon sabia que aquelas tochas não eram para iluminar o caminho deles.

Com as tochas ainda apagadas, se aproximaram lentamente da casa, e sorrateiramente, sem fazer barulho algum, acenderam-nas. O elfo sorriu por dentro de seu esconderijo. Será que os malditos o menosprezavam tanto assim a ponto de achar que o pegariam deste modo? Saiu de sua toca e preparou seu arco, enquanto tomava uma distância segura.

De uma só vez, os cinco lançaram suas tochas sobre a casa, e observaram as labaredas espalharem-se pela madeira de suas paredes e teto. Não demorou muito e toda a casa estava em chamas, formando uma macabra fogueira.

Foi quando ouviram um estalo, e um som estrondoso se ouviu por todo o vale. Inesperadamente, a casa explodiu, arremessando destroços e pedaços de metal em todas as direções, inclusive nos misteriosos incendiários.

Kiéferon riu novamente. Então o pó mágico que aprendera a fazer com aquele pequenino estranho de Valkaria realmente funcionava. Lembrou-se de que deveria voltar até Niebling e agradece-lo por isso. Acharam que tinham pego o elfo, mas era ele quem os pegara. Murtak e Kallicar gemiam de dor e pelo susto que haviam levado. Murtak tinha uma farpa de metal no olho esquerdo, e Kallicar uma enorme estaca na perna direita. Os outros pareciam estar desacordados.

***

Gruvar aguardou sua hora pacientemente. Seu fiel lobo Worg também. Rasgador era seu nome. O hobgoblin viu seus soldados passarem pela trilha, e logo depois o elfo se revelou, como esperava. Agora eles incendiariam a casa, distraíndo-o tempo suficiente para que ele passasse pela trilha com rasgador e surpreendesse sua presa. Ruxar ficaria escondido como um plano de contingência.

Rasgador já estava em carga quando a casa explodiu, e ao mesmo tempo em que perdera alguns soldados, o barulho manteve o elfo ainda mais distraído. Não tinha tempo para descobrir que mágica élfica era aquela. Sabia que tinha que aproveitar a oportunidade, e era isso que iria fazer.

Os sentidos de Kiéferon o avisaram sobre alguma coisa se aproximando rapidamente em suas costas, e ele jogou-se no chão bem no momento que uma enorme maça zuniu pelo espaço que sua cabeça estava ocupando.
Viu um grande lobo parar um pouco mais a frente, e sobre ele, um enorme hobgoblin. Não precisou perguntar nome algum.

Sabia que aquele era Gruvar.

Na queda acabou desarmando seu arco, e vendo que não teria tempo para se preparar até a próxima investida, jogou seu arco no chão e desembainhou sua espada. Abriu os braços em desafio e Gruvar se lançou em resposta. O elfo murmurou palavras arcanas, e no momento em que o inimigo passou por ele, abaixou o corpo e rasgou o flanco de Rasgador, enquanto a maça de Gruvar pareceu resvalar em alguma aura de proteção de Kiéferon.

O lobo afundou seu focinho no chão e rolou desajeitadamente, lançando seu montador ainda mais longe. O elfo virou-se lentamente:

-Gruvar, nesta casa viveu minha irmã e seu marido. Viveram pacificamente os últimos dias de suas vidas, sem se envolverem em guerra estúpida alguma. Não mereceram a morte que tiveram. Você irá pagar, Gruvar, você irá pagar.

Então o elfo tinha ligação com os habitantes daquela casa? Lembrava-se deles, e das crianças, as trigêmeas que levou como prisioneiras para Ranaarkk. Iria se aproveitar disso como podia para mudar o jogo.

-Fracos, eles eram. –Disse enquanto se levantava e recuperava o folego. –Devorei os dois e sua carne nem sequer valeu a pena. Espero que as meninas tenham um sabor melhor, afinal, as levarei para o acampamento do grande general, para serem sacrificadas em sua honra. Como acha que eu ficaria diante de meu general se eles tivessem o sabor dos pais?

Kiéferon encheu-se de ódio. Ia correr em sua direção e acabar de vez com a sua vida, mas um dos outros hobgoblins (O que estava com o olho ferido, Murtak) saltou sobre ele, e ambos cairam rolando no chão. Foi o tempo que Gruvar precisava para preparar seu arco. Um arco élfico, tomado das mãos de um destes malditos antes de matá-lo.
Murtak estava agarrado a Sliraden como se esta fosse a única arma de Kiéferon. Talvez fosse a única vísivel. De sua bota o elfo sacou uma adaga e esfaqueou Murtak até que ele parasse de se debater sobre ele. Livrou-se rapidamente do corpo e se levantou, procurando Gruvar com os olhos.

Percebeu que seu inimigo já estava de pé, com um arco retesado e apontado para ele.
-Adeus, orelhudo maldito.-Disse ele, e disparou a flecha.

A flecha voou silenciosa até o elfo, mas ele rapidamente tirou o rosto da frente e segurou-a com a mão direita. Olhou o monstro nos olhos e percebeu que ele estava surpreso.

Kiéferon ouviu os gemidos dos outros hobgoblins se recuperando e ponderou sua situação. Não teria chande contra todos eles, não em campo aberto, essa era a verdade, acabare com um enorme batalhão de Bugbears, mas os pegara de surpresa. Então conjurando mais algumas palavras arcanas abriu os braços e criou uma densa nevoa esbranquiçada, e logo sumiu entre ela.

Quando todos já estavam de pé em volta do corpo esfaqueado de Murtak, Gruvar pensou: “Não é um inimigo qualquer esse elfo, com certeza é um oponente de valor.”

(continua)