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Conto: O Libertador – parte I

Lérienn sorriu para suas crianças tentando disfarçar o medo que sentia. A casa estava toda trancada, com vigas de madeira para barrar a entrada pela porta e pelas janelas.

Huthren estava ao seu lado, empunhando sua velha espada que há muito tempo não saia da bainha. Olhou para sua bela esposa elfa e lembrou de como era um homem de sorte. Desde o dia em que abandonara as Montanhas Sanguinárias em busca de aventuras nunca havia imaginado que iria se casar com uma das criaturas mais belas que já pisou sobre estas terras. Lérienn possuia uma vasta cabeleira ruiva que descia até suas costas, contornando um rosto de ar quase infantil e um corpo muito bem formado. Além de beleza física, possuia uma mente afiada que nem em mil anos um rústico bárbaro das montanhas teria.

Desta vez a elfa sorriu para o seu marido. Vê-lo empunhando aquela antiga espada, com o fio desgastado pelo tempo e pelo uso a fez recordar da época em que viajavam pelo mundo em busca de aventuras e tesouros. Não que esta fosse a vontade de Lérienn, para ela, tudo estaria muito bom se tivesse permanecido em Lenórienn estudando magia e outros segredos do mundo. Porém Kiéferon fugiu, e no papel de irmã mais velha de um casal de orfãos, ela não iria abandonar seu irmão assim no mundo. Agora os anos haviam passado, e eles, na companhia de Taurgrus o minotauro, Gurdhagrimm o anão, Mielikit uma agil pequenina e, é claro, Huthren, colecionaram tantos aliados quanto inimigos, alguns mortos (de modo que isso só fazia uma diferença efetiva para poucos deles…) e outros arrependidos. Haviam sido grandes anos aqueles, e o Coração de Lérienn caiu pelo impetuoso bárbaro louro. Hoje, o dourado de seus cabelos deu lugar a um tom cinza em algumas partes, e branco em outras. Huthren era humano, e Lérienn fora avisada disso inumeras vezes por inumeras pessoas. Enquanto o tempo consumia seu esposo, ele nem sequer passava para ela.

E tão pouco para suas filhas, as quais o pai não veria crescer. As belas trigêmeas já possuiam quase quinze anos, mas pareciam não passar dos seis. Eram a cara da mãe, apesar de Kiéferon ter alegado em sua única visita desde o nascimento delas, que na verdade eram a cara do tio.

Entretanto, por mais que tivessem esse problema, estariam lado a lado para qualquer dificuldade que pudesse surgir.

***

A tempestade caia pesada sobre a pequena casa de madeira e o som alto da chuva e dos trovões atrapalhava os ouvidos velhos de Huthren. Ouvira os boatos da queda de Lenórienn, e sabia que não tardaria para que os malditos hobgoblins chegassem até a sua casa no escondido Vale das Macieras. Há duas semanas que estavam com esse medo correndo em suas veias, e o guerreiro sabia que devia proteger sua esposa e filhas, até o último suspiro de seu corpo. Só não sabia que esse suspiro estava tão próximo…

***

Gruvar O sangrento liderou seus Hobgoblins através dos tortuosos caminhos daquelas verdejantes montanhas em busca do Vale secreto que o maldito elfo lhe revelara enquanto era acometido dos seus “afagos”. Agora que haviam sido vitoriosos não conseguiam compreender como os malditos e fracos elfos resistiram durante tanto tempo as investidas dos hobgoblins. A ordem do novo líder era a de que não deveria restar um único elfo vivo naquelas terras, e com certeza Gruvar não tinha intenções de desrespeitá-la.

A trilha era estreita, e percorria a margem de um corrego qualquer. Não apresentaria grandes dificuldades, não fosse a forte chuva e os ventos intensos que vez ou outra tiravam seu equilíbrio. Trazia sob seu comando mais quinze hobgoblins que pareciam ter tanta dificuldade quanto ele de passar por ali. Mas logo chegaram ao final da trilha, e um pequeno vale se revelou a eles. Cravada bem no centro do vale, como se fosse um desafio, estava uma bela casa de madeira, que com certeza fora construída por elfos. Assim que a avistaram seus corações se encheram de calor e uma sensação de vitória abateu-se sobre eles. Um urro selvagem e estrondoso ecoou pelo vale, e logo após, um poderoso trovão.

***

Então eles chegaram.

Lérienn correu com as crianças para dentro de um alçapão sussurrando palavras élficas para acalma-las como podia. Há duas semanas vinham sentindo a tensão crescente na casa, e sua parte élfica sensível sentia uma pertubação em seus pais. O urro que acabaram de ouvir era assustador, pior do que qualquer coisa que haviam escutado antes, e servia como uma confirmação de que algo muito ruim estava pra acontecer.
Huthren os viu cercar a casa, correndo e urrando como uma matilha de lobos que cerca sua presa. A elfa terminou de fechar as portas do alçapão e sussurrou palavras arcanas para garantir que elas não se abririam facilmente. Então olhou para seu amado marido, com mais idade do que o aconselhável para aquele tipo de situação, e sorriu para ele.
-Como nos velhos tempos!

O guerreiro acentiu com a cabeça:

-Como nos velhos tempos. – Respondeu sem muita firmeza na voz.

Uma voz gutural se fez ouvir do lado de fora, falando tão alto quanto o vento e os trovões.

-Abram esta porta elfos, e morrerão rapidamente! Nos façam entrar a força, e desejarão nunca terem nascido!

-Se tentarem passar por esta porta vocês é que se arrependerão de terem nascidos, porcos fedorentos!

Huthren queria ter tanta segurança quanto passava.
-Vocês fizeram suas escolhas, elfos!

Um longo minuto de silêncio se fez no vale, e a tensão cresceu de ambos os lados. Então, junto com mais uma trovoada, a lâmina de um machado surgiu abrindo caminho pela madeira da porta. Huthren respirou fundo e apertou a mão calejada no cabo da espada, se aproximando o máximo possivel da porta. No terceiro golpe ela rendeu-se e esfacelou diante do machado, e o rosto sorridente de um hobgoblin surgiu atrás dela. Mal deu seu primeiro passo para dentro da casa e o aço zunindo da espada de Huthren partiu-lhe o pescoço. Sua cabeça ainda rolou sorridente pelos pés do bárbaro.
-E então, quem será o próximo?

Gruvar sorriu. Ergueu os braços e mostrou ao guerreiro um arco que provavelmente pertencera a um elfo. E então o líder percebeu que o guerreiro não se tratava de um orelha-pontuda. Esticou a corda e liberou a flecha.

Huthren deu um passo para trás,e entrou para o fundo da casa. Lérienn percebeu uma flecha presa no peito de seu marido e gritou em alguma língua arcana. Um som de estática foi ouvido dentro da casa, enquanto luzes se acenderam ao redor de suas mãos. Ela as apontou para fora da casa e um relâmpago disparou contra os invasores. Gruvar e os outros saltaram como puderam para os lados, mas ouviu o gemido de alguns de seus sendo atingidos pelo raio.

-Malditos elfos! Peguem-nos!

Os monstros entraram ferozes na casa, mas encontraram o humano ainda de pé, com sua espada pronta para partir mais alguns deles antes de morrer. Os dois primeiros que entraram na casa perceberam isso tarde demais, e suas entranhas misturaram-se com a sujeira do chão. Mas Huthren estava velho e cansado, e não tinha mais os reflexos e a velocidade de antes. Um machado surgiu por detrás dos corpos que ainda caiam, atingindo-lhe o flanco direito. Seu braço estremeceu e sua espada caiu. Ainda com o humano preso em seu machado o hobgoblin o puxou até próximo de seu rosto e sorriu em desafiu para ele.

Lérienn gritou mais algum comando arcano e feixos de luz partiram de seus dedos contra o carrasco de seu marido. O goblinóide deu um passo para o lado e caiu sem vida.

Outra flecha zuniu contra Huthren, desta vez atigindo-o na testa.

A elfa sacou de sua espada (fora um presente do irmão) e caminhou até o cadáver do marido. Parou sobre ele e ergueu a espada ameaçadoramente. Mais um Hobgoblin entrou na casa, sorrindo ao ver a frágil elfa empunhando uma arma. Gruniu e simulou avanços em direção a ela, como se brincasse com uma presa. Lérienn respirou fundo e ao perceber que o monstro havia abaixado a guarda, enfiou a lâmina garganta adentro do invasor. Quando seu corpo caiu, percebeu atrás dele a figura imóvel do líder daquele grupo de caça:

Gruvar, o sangrento.

Ele sorria para ela.

A elfa encheu os pulmões o máximo que pode, e gritando um nome, partiu em direção a ele.

-Kiéferon! – A voz assumiu um tom desesperado, como um longo pedido de ajuda, e os pelos da nuca de Gruvar arrepiaram-se diante daquilo. Não era natural, com certeza.
Mas, tratando-se de elfos, poucas coisas o são de verdade.

Girou se machado com força em um único golpe e a cabeça da elfa rolou pelo chão.

(continua)