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Conto: Um novo caminho do metrô

Era tarde, e ele estava cansado. Pegou aquilo que os amigos chamavam de metrô negreiro. Quase vazio, talvez o último do dia.
Seu nome era André. Tinha o rosto magro como todo o corpo e dedos desproporcionalmente compridos e finos. O próprio André sempre julgou que fosse culpa do seu trabalho, talvez uma pequena adaptação de seu corpo, aos últimos 15 anos mexendo com computação. Digitando por horas a fio, códigos e seqüências numéricas, do antigo binário ao mais abissal Cobol. Atualmente estava em um trabalho que julgava chato. Trabalhava com bancos de dados até altas horas para uma empresa bancária. “Deste jeito, um dia os bancos serão donos de tudo”, esta era a filosofia que regia André.

Bom, lá estava ele, ainda muito longe de casa. Morava próximo à estação Tucuruvi, e tinha um bom itinerário pela frente. O cansaço e o vazio do vagão aumentavam ainda mais a proporção da viagem. Ele esfregou os olhos com uma das mãos, segurando o pesado óculos com a outra. Como não havia mais o que fazer, pegou um livro em sua mala, que sempre levava a tiracolo.

André tinha uma paixão que só era refreada por sua profissão exigente, a leitura. Quando não estava trabalhando, e isto era realmente raro, se pegava lendo. Seus pais sempre atribuíram sua solidão a isto, o trabalho integral e a dedicação doentia à leitura. Morava sozinho. Também tinha poucos amigos, praticamente só os do escritório, embora sua lista de e-mail para piadinhas e correntes fosse gigantesca. Fruto dos diversos serviços pelo qual passara e prometera “manter contato”. A culpa não era dele, se o que esta geração entende por “manter contato” era adicionar o nome de algum conhecido a uma gigantesca lista de e-mail e passar a “encaminhar” todas as piadinhas e correntes que recebia.

A esta altura já estava baldeando da linha verde para a Azul, apenas para encontrar outro vagão vazio. Ele pensou um pouco nos funcionários que estavam cuidando dos últimos trens com uma dose de compaixão, afinal, compartilhava do mesmo problema deles. Não! O caso dele era um pouco pior, ele tinha entrado no serviço na manhã anterior e saía somente agora. Estes funcionários, apesar do horário, deviam trabalhar de 6 a 8 hora “apenas”, e também não tinham aquelas profundas olheiras na face. Pareciam bem dispostos, principalmente se comparados ao André.

Ele sentou no trem e amaldiçoou seu serviço. Estava de saco cheio de tudo aquilo. Queria ter mais tempo para viver, para ler, e quem sabe, escrever, não é mesmo? Ignorando os bons modos por alguns instantes largou o pé sobre o banquinho cinza, deixando-se deitar um pouco no banco. Iria ler um pouquinho, isto lhe faria bem.

Absorto na leitura, ele não soube precisar em que estação estava, quando tudo aquilo começou. O metrô começou a perder velocidade, cada vez mais rápido, até uma brecada súbita. Ele xingou algo, se ajeitando novamente na cadeira, quando as luzes caíram, reparou que as luzes de emergência chegaram a acender, somente para se apagarem logo em seguida. Ele amaldiçoou novamente a má sorte. Estava preso em uma provável queda de força, tarde da noite, e tinha que retornar logo cedo ao serviço pela manhã seguinte. Sempre o serviço.

Levantou-se, sentindo-se bobo tateando o escuro sem saber o que fazer. Pensou nos pequenos microfones próximos às portas, mas lembrou-se que isto era apenas naqueles trens nacionais da linha verde, estes tinham apenas botões para abrir a porta. Será que funcionariam sem força? Com certeza não eram alavancas mecânicas que abriam a porta, mas talvez houvesse algum dispositivo de emergência, não é para isto que servem?

Tateando as paredes, chegou à porta, que estava pouco à sua frente. Puxou a capa plástica que cedeu sem resistência e tentou o botão, dando-lhe um murro com força. A porta não abriu. Bateu mais uma vezes no botão, mais indignado do que esperando que funcionasse. “Droga!” – berrou alto- “Porquê tudo tem que dar errado comigo?”

Sem ter certeza do que fazia, passou os dedos entre as frestas de borracha da porta e apoiando os pés nos batentes, conseguiu fazê-la ceder o bastante para poder passar. Saiu meio temeroso do carro, sem saber o que fazer. Desorientado, não reparou o quanto estava escuro e silencioso do lado de fora. Ficou com aquela inquietante sensação de ter o coração no pescoço quando decidiu: iria caminhar até a próxima estação.

Com passos inseguros, avançou titubeante, começando a se dar conta da completa escuridão, abreviada apenas pela tênue luz de seu celular. Sentiu-se mais uma vez idiota, andando desamparado pelos trilhos, usando um celular como lanterna. O que o fez sair? E quanto o metrô havia sumido de vista?

Tentou olhar para trás, mas não conseguiu ver nada do metrô, o que tinha acontecido? Apurando os ouvidos ele percebeu o que pareciam passos à sua frente, ainda que distantes. Caminhou mais um pouco e viu uma luz bruxelante pelo corredor à sua frente. Também pensou ouvir mais alguma coisa, talvez um sussurro nas trevas. O que estava acontecendo? Sentiu-se envolto em um ar morno, úmido, como que vindo do subterrâneo. Escorou-se na parede, e avançou, apesar das pernas trêmulas. Já estava muito adiante para voltar, e desorientando demais para que o bom senso lhe surtisse efeito. E fosse o que fosse, era logo depois da leve curva que os trilhos faziam pelo caminho. Toda esta situação também lhe havia despertado algo no fundo de sua mente. Algo como uma curiosidade, quase infantil, que lhe corroia a consciência, lhe impulsionava a continuar ir em frente, ignorando medo, cansaço e bom senso…

Quase deitado, espiou de canto de olho pela curva, mirando de onde vinham os sussurros. Viu dois homem, clareados apenas pela luz de velas. Havia umas dez a doze velas ao redor deles. Observando bem, viu que estavam dispostas de modo a formar um desenho, algo como uma estrela e eles estavam ao centro. Não era possível distinguir o que falavam. Pensou que era por que sussurravam, depois, pensou tratar-se de uma outra língua, pensou ser inglês, depois espanhol, e embora sem nunca ter ouvido nada alem de amém, talvez até latim. Mas era impossível capturar uma única palavra daqueles indistintos sussurros. Percebeu com o tempo, que tratava-se de um mantra. André senta uma falta de peso única no estômago, e uma ansiedade tremenda, sua camisa colava no corpo, e ele não sabia se suava pelo ar morno ao redor dele ou era o nervoso. Viu um grande e velho livro próximo aos dois homens. A capa deste livro mostrava duas coisas, um dia já tinha sido bem mais clara ilustrando uma idade avançada, e também era feita de couro. André sentiu as palmas das mãos muito suadas e não conseguia levantar-se, foi quando ouviu um som, terrivelmente claro, ainda que indistinto: Cthulhu. Depois vieram uns quase gemidos prolongados, que fez desejar ser capaz de sair dali o mais rápido possível, mas seu corpo parecia não corresponder ao desejo da mente, tremendo demais para qualquer ação. Ele viu quando as luzes das velas se intensificaram, como que o ar fosse algo volátil. A luz ficou cada vez mais intensa, até que os dois homens aos centro daquela terrível estrela, acabaram engolfados pela luz. André esboçou levantar-se, tomado por um medo irracional, e estava quase conseguindo quando o que viu fez seu coração parar por um momento. Sabe quando sonhamos estar correndo, e de repente caímos em uma vala, acordando de sobressalto? Era o que André sentia, mas quando deveria acordar, tudo se congelou ao seu redor, e a sensação do coração disparado não passava, mas persistia por longo tempo. Havia algo inumano onde houve duas pessoas. Garras, parecidas com de caranguejos, mas esta era só uma forma simplista de descrever o que via. Havia mais… antenas! Um vermelho vivo, e a luz bruxelante também parecia agora emanar da própria criatura.

André congelara. Era como se aquilo que ele via abrira um rasco em sua mente, e esta trabalhava em fechá-lo, tentando ignorar o que via, rejeitando a dura realidade. Tomado por uma catatonia, André deixou o celular despencar de sua mão, olhando pasmo para a coisa à sua frente, boquiaberto, de expressão de horror indescritível congelado em sua face. Poft! Poft… Era seu celular, que caíra sobre uma viga do trilho e o som ribombava pelos túneis escuros. O ruído despertou-o. Quando ele pensou que acabara o barulho, o celular ainda “quicara” outras três vezes sobre o trilho metálico, fazendo ruidosos sons a cada tombo.

Os olhos de André subiram lentamente do celular com o display trincado, seguindo pelo trilho até o brilho luminoso, rezando para que a imagem que estava ali sumisse de repente, rezando não só para que tudo aquilo fosse uma grande mentira, mas também para aquilo não estar olhando para ele agora. Mas estava. Ele se viu diante de uma criatura gigantesca. Quase três metros de altura. Aquilo que deveria ser o copo estava coberto por centenas de pequenas larvas, que se mexiam apressadas sobre sua carapaça. E o que parecia ser centenas de pequenas antenas, no topo do corpo, estava apontado de todo para ele com tal compenetração que o fez sentir-se nu, diante do ser. Ele olhou para aquilo, duvidando de sua própria existência. Sentindo-se ínfimo. Incapaz de se mexer acompanhou minuciosamente a garra aberta vindo vagarosamente em sua direção, tocando sem ombro de forma brusca quando…

– Estação terminal Tucuruvi, pedimos a todos ocupantes que desembarquem nesta estação. Este trem será recolhido.

Desperto de sobre salto, ouviu o que deveria ser o primeiro toque anunciando o fechamento das portas, agarrou o celular e saiu correndo. Estava empapado de suor e imerso em uma confusão mental.

Ao chegar em casa, André tomou algumas decisões. Nunca mais, não importa o que custasse, iria trabalhar daquele jeito, 48 horas seguidas. Isto era terrível para sua cabeça. Também agradeceu ter esquecido aquele maldito livro de H. P. Lovecraft no metrô aquela noite, e nunca mais tocaria em um livro daqueles. Principalmente depois que constatou que seu celular estava, misteriosamente, com o display quebrado, e ele nunca mais dormiu no escuro outra vez.

Por Emanuel Campos