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Contos: O Caminho para Boston

Era sexta-feira e chovia bastante em Boston. Jack Compton tirava o seu Ford da garagem, visivelmente contrariado. Tanto por odiar as missões de seu novo departamento quanto por achar que as sextas-feiras eram reservadas para outras atividades.

Cada vez que encarava seus colegas de departamento sentia um misto de raiva e desapontamento. O Sr. Compton era um homem simplório que estava satisfeito com o punhado de verdades que havia tomado para viver. A cada nova tarefa que lhe era dada parte de seu sistema ruía. Era como um tapa na cara.

Tanto melhor que desta vez estava indo sozinho. Poderia resolver as coisas do seu jeito, do mesmo jeito que sempre resolveu as coisas. A viagem para Gloucester era demorada e Jack Compton acendeu os faróis do carro que iluminaram a chuva torrencial. Deu uma última olhada no banco do lado: gasolina extra para um longo caminho e uma caixa de balas para encurtar sua tarefa.

***

Durante a viagem Jack Compton pensou repetidamente em sua missão. E cada vez se sentia pior por ter que fazer esse tipo de coisa. Parecia simples e teria plena certeza de seu sucesso se o caso houvesse chegado em sua mesa há alguns meses, em Los Angeles. Em Boston e com toda afetação de seus companheiros de trabalho tudo parecia mais complicado do que realmente era.

Allan Chesterfield, o filho de um eminente industrial, havia desaparecido após algumas semanas de comportamentos estranhos, sem deixar nenhum rastro. Tudo havia começado após uma visita do jovem a uma velha mansão da família que ficava perto de Gloucester, em Cape Ann. A partir de então, o rapaz passou a freqüentar bibliotecas procurando livros pouco disputados, passou a ter hábitos noctívagos, dormia durante as manhãs e mal era visto em casa. Em pouco tempo já não comia mais e se tornava cada vez mais agressivo e isolado.

Um médico amigo da família sugeriu, ao ouvir o relato dos pais, o diagnóstico de demência precoce e um plano de tratamento que incluía sua internação em uma instituição modelar na França. Quando arrombaram a porta de seu quarto descobriram que o filho que não viam a mais de uma semana não estava mais lá. Pior, descobriram que o quarto havia se transformado em um templo de adoração do oculto. A julgar pelos símbolos em uma seqüência ensandecida, feitos com sangue, pelo chão e pelas paredes, um templo de adoração do terrível.

Ao ouvir o relato do caso, Jack Compton teve certeza de que se estava em algum lugar deste mundo, o jovem estava na mansão de Cape Ann. Lá tudo começou e lá tudo deveria acabar. O caminho era longo e repleto de hesitações, um sinuoso desfiladeiro, a paisagem em nada ajudava. A tempestade castigava o caminho e quando olhava para o Atlântico, Jack Compton via as nuvens negras se estenderem até o horizonte. Quando olhava para o continente tudo que via era o paredão de pedra que se erguia como um muro aterrador que afirmava a pequenitude do Sr. Compton e de seu carro. Não bastasse o espetáculo de humilhação que a natureza oferecia tinha que fazer esforços redobrados para controlar o veículo e impedir que este derrapasse e selasse seu destino no mar ou na pedra. Sentia-se um homem miserável.

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Chegar em Gloucester foi uma dádiva dos céus para Jack Compton. Depois de dormir em pequenas pousadas e comer em restaurantes de beira de estrada nos últimos dias nada poderia ser mais agradável do que boa cama e boa comida. Talvez o sol da Califórnia fosse mais agradável. O Sr. Compton poderia citar dúzias de coisas mais agradáveis, mas desde que tinha se mudado para a cinzenta Boston suas expectativas haviam diminuído em muito.

Na cidade pode descobrir algumas informações relevantes que não constavam no prontuário do caso. A mais importante delas dava conta de que a casa estava com a família há pelo menos dois séculos. Seu construtor, o patriarca da família, havia vindo da Europa fugindo de resquícios da Santa Inquisição. Tinha escolhido Cape Ann, na época em que Gloucester era um pequeno povoado, devido sua localização isolada. A casa, diziam os mais supersticiosos, tinha sido construída em um ponto perfeito para a observação das estrelas e, após sua construção, era comum aos curiosos que por lá bisbilhotavam ouvirem e verem barulhos e vapores misteriosos. Por tudo isso a casa permaneceu sempre isolada, ninguém ousava ter vizinhos tão indignos.

Mais de duas gerações depois, o interesse pela casa havia diminuído. Os negócios em Boston fizeram a família se mudar. A mansão se tornou uma casa de verão, cada vez menos visitada a ponto de ser abandonada pelos Chesterfield. Até que um jovem impertinente chamado Allan resolveu estudar a história de seus antepassados e fez uma visita para averiguar se havia alguma herança esquecida ou tesouro perdido.

Se ele havia achado algo ou apenas havia surtado, impactado por lendas antigas, era o que Jack Compton ia descobrir nessa tarde.

***

Depois de três horas de viagem em uma precária estrada de terra, Jack Compton queria apenas esticar suas pernas e estalar suas costas. Quando, após uma curva fechada, avistou a mansão no alto de uma montanha, no fim do caminho de lama, não pode esconder um certo contentamento. Não que a casa se erguendo imponente, apesar de visivelmente avariada pelo tempo, fosse uma visão tranqüilizante. Mas ao menos estaria voltando para casa daqui algumas horas, ou pelo menos esperava por isso.

O céu cinzento, carregado de nuvens pesadas que agora choviam uma fina garoa, emoldurava a figura da mansão, que mais de perto tinha a terrível aparência de algo que já durava mais do que naturalmente deveria. Jack Compton caminhou até a beira do precipício, nem tanto para ver o mar, mas para por alguns instantes afastar sua visão da casa. O Atlântico batia com força nas pedras, trinta metros abaixo. Até o mar parecia cinzento nessa tarde infeliz. Chutou uma pedrinha desfiladeiro abaixo e enquanto via ela descer acendeu um cigarro, como que adiando o inadiável. Fumou o cigarro lentamente, observando com o canto do olho a casa. Deu um último trago e jogou o cigarro nas pedras. Foi até o carro, pegou o lampião em uma mão, a .45 em outra, a carregou bala por bala.

Bateu a porta do carro e foi andando, ouvindo o barulho que sua bota fazia na lama que o chão havia se transformado. A chuva parou quando Jack Compton passou pelo umbral que ficava a dois metros do portão da casa. Com um leve toque empurrou a porta e entrou no pesadelo.

***

A casa fedia a mofo e a doença, parecia que o ar lá dentro estivera parado nos últimos séculos. O ambiente era totalmente escuro, muitas cortinas cobriam cada janela, e a lamparina emitia uma luz fraca comparada com as trevas avassaladoras do local. Havia pó por toda parte e facilmente se distinguiam os rastros pelo chão. Algumas pegadas de um adulto, muitas pequenas pegadas perdidas aleatoriamente pelo salão de visitas e as marcas no pó de alguma coisa grande que tinha sido arrastada por ali.

Jack Compton caminhou seguindo com determinação até a sala de jantar, uma continuação do salão de visitas. Não saberia dizer o que era mais inquietante, a mesa posta, os quadros na parede ou o relógio que ainda funcionava. Apertou forte o revólver e pensou em voltar até a porta e ir embora. Preencheria qualquer coisa no relatório e teria pesadelos por uma semana. Resolveu seguir até a cozinha, para onde iam os muitos pequenos rastros.

Na cozinha pode, graças a uma cortina despencada, ver com clareza uma terrível pintura. Por todo o cômodo havia dezenas, talvez uma centena, de potes de vidro empilhados uns sobre os outros, por toda parte, no chão, em cima da mesa, nas cadeiras, no forno, em todas as direções que olhava, como que formando uma macabra escultura. Aproximou-se de um dos potes e iluminou-o, percebendo um viscoso líquido vermelho escuro. Seu coração palpitou, sentiu vontade de vomitar. Não precisou provar o conteúdo dos potes, mas se tivesse o feito, teria sentido o gosto metálico do sangue.

Mais do que nunca precisava achar o imprudente rapaz, e tirá-lo com vida dali, se ainda fosse possível. Ignorou o resto dos aposentos no primeiro andar e tomou a grande escada no centro da sala principal. A cada degrau seu coração parecia parar. Engoliu em seco. Ao fim da escada ouviu, abafado, por trás das paredes um som. Não soube dizer se foi sua imaginação ou se havia alguém mais naquela maldita casa esquecida pela ordem natural das coisas.

Seguiu pelo longo corredor à sua frente. Alguma coisa o chamava para adiante. Já não era mais na podre madeira daquela casa toda de madeira que pisava. Era uma gosma, de consistência totalmente diferente de qualquer coisa do mundo dos vivos, em que pisava. A coisa parecia escorrer por todos os aposentos, passar por baixo de todas as portas que estavam trancadas e que não iria abrir. Não tinha cor, não tinha cheiro, mas tinha uma consistência que era o suficiente para chocar os olhos e dar náuseas. Com o coração e o passo acelerados seguiu subindo pela estreita escada que dava no sótão, de onde agora ouvia com clareza uma cantoria estonteante repleta de nomes indizíveis e de histórias inenarráveis.

Jack Compton chutou com força a porta, com o revólver apontado para frente. Pareceu não crer no que via. Ali estava o jovem que procurava, não sabia como mais o reconhecia. Já não se parecia com nada que remotamente se referia ao humano. Tinha acima de si, pintado no teto, um mapa das estrelas, diversas das quais não apareciam em nosso céu, sóis de mundos que foram intencionalmente esquecidos. Já não tinha mais corpo: era ele mesmo uma extensão da terrível gosma por onde Jack havia caminhado. Seu corpo de muitos membros e olhos e anatomia assustadoramente díspare, estava imerso em uma banheira de sangue, com muitos dos potes de vidro quebrados à sua volta.

Pequenas ossadas como de crianças preenchiam o resto do quarto, completando a terrível visão, que tinha como fundo a hipnótica reza profana. Jack Compton não esperou, descarregou o revólver enquanto gritava por Deus para si e para a criatura. Deu às costas e se jogou desesperadamente escada abaixo quando percebeu que seus tiros não abalaram a Coisa-Gosma que agora se levantava de seu trono de sangue. Tinha que fugir e sentia a gosma em seus pés se enrijecer, começar a realizar uma série de movimentos assustadores. De todos os quartos que não ousou revistar saíam coisas-gosmas menores, funcionando como tentáculos da coisa maior que agora descia destruindo a escada que dava no sótão.

Jack Compton correu desesperado, se livrando como podia dos obstáculos e criaturas à sua frente. Não respirava mais e seu sangue parecia congelado em suas veias. A cantoria parecia mais alta e invadia sua cabeça, fazendo seu crânio vibrar. Nunca mais iria achar as histórias do departamento uma tolice, e jurava que trataria com mais respeito aqueles idiotas.

Enquanto tentava abrir caminho, Jack sentiu como se todo mal do mundo, de todos os mundos, estivesse acordando naquela casa. O que quer que estivesse acontecendo era da ordem do mais terrível, do mais aterrorizante. Ouviu o barulho de uma centena de potes de sangue se quebrando e no alto da escada que levava ao primeiro andar viu o sangue escorrendo pelo chão como se estivesse sendo puxado por alguma força em direção a porta. Sentia a casa inteira tremer enquanto descia a escada aos pulos e aos berros. À sua frente o sangue se agrupava em alguma forma bizarra enquanto atrás podia ouvir o rastejar e o canto da Coisa-Gosma como um sussurro em seu ouvido. Rompeu pelo salão principal passando feito um louco pela criatura de sangue que se formava, esparramando-a em todas as direções. Pulou pela porta, arrebentando-a, em um impulso desesperado pela própria vida. Arrastou-se pela lama, tentando se por de pé, para fugir do pesadelo macabro que tinha atrás de si.

Ao chegar no carro com a respiração ofegante e com o medo de ter em seu encalço um demônio esquecido pelo tempo, Jack Compton olhou para trás, para ver quanto tempo tinha até ser subjugado pelo canto ritualístico e pela presença imponente da criatura. Para sua surpresa o ser abismal havia parado diante da porta e dado um urro odioso. Não havia passado pela porta e ao ver isso o Sr. Compton teve certeza de que não poderia passar.

Coberto de sangue e lama olhou boquiaberto para a macabra criatura que se contorcia em movimentos inimagináveis, sem poder no entanto transpor a porta para matar o invasor. Jack Compton olhou para dentro do carro, pegou os dois galões de gasolina que haviam sobrado e, passo a passo, voltou até a entrada da casa. Ali, a poucos metros do ser, começou a espalhar a gasolina em quantidades generosas em torno da casa. Parecia estar sozinho agora, ignorando a presença que fazia poucos segundos, o havia deixado em pânico.

Deu a volta na casa e quando terminou o segundo galão foi até a frente da casa. Olhou para o que deveria ser a face da criatura, coberta por muitos olhos. Sacou o zippo de seu bolso e acendeu em sua bota. A criatura ao ver a chama do isqueiro ganiu, emitindo um guincho nunca ouvido em milênios. Jack Compton jogou o isqueiro no chão e se afastou enquanto a casa era consumida pelo fogo e a Coisa-Gosma se desfazia em chamas e gritos.

***

Jack Compton ligou o carro e pegou o caminho de volta. O céu já não parecia tão cinzento, nem a estrada tão enlameada. Estava feliz, havia resolvido as coisas do seu jeito, do mesmo jeito que sempre resolveu as coisas.

Jack Compton se olhou no espelho, ajeitou o chapéu e deu um sorriso. Era um longo caminho para Boston e pisou fundo no acelerador.

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Conto vencedor do Concurso de Contos de Call of Cthulhu
autor: Daniel Mograbi
Publicado anteriormente na REDE RPG