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RPGs Bizarros: Jovian Chronicles

É fã de anime e RPG? Gostava de Robotech, Piratas do Espaço, e especialmente Patrulha Estelar? Procura um sistema rápido e centrado no Roleplaying e não no Roll-Playing, e que ainda simule muito bem a luta de naves estelares, caças espaciais e robôs gigantes? Bem vindo ao universo de Jovian Chronicles.

“Luzes vermelhas, o alarme estridente. Pauline Lacroix fica atordoada por um momento, então salta do seu sono e corre para vestir seu uniforme.

‘Aqui é a tenente Juno,’, diz a voz clara e com um poderoso tom de autoridade que Pauline aprendeu a temer, e mais tarde a respeitar, ‘isso não é uma simulação, quatro corvetas de classe Bricriu e um porta-naves de escolta Tengu entraram na zona espacial de Nova Montreal. A casualidade entre civis ultrapassa pelo menos 500 mortos ou desaparecidos. O cruzador de mísseis, Veloz, está sendo atacado por um esquadrão de caças Wraith. É ai onde entramos, pilotos, entrem em suas exo-armaduras!’, gritava agora a tenente em sua voz não mais contida. Ela quase podia ver seu rosto de raiva.

Correr enquanto vestia o uniforme de voô não fora a melhor das idéias, mas não havia muita opção, havia? Não importava quanto treino tivéssemos, uma situação real de combate é assustadora demais. Os outros pilotos estavam no mesmo estado. ‘Todos somos verdes demais’, pensa Pauline, pulando para dentro de seu Pathfinder, e imediatamente ligando e checando sistemas.

Antes de pedir autorização para lançamento, Pauline faz uma rápida oração, e cruza os dedos. ”

Background

O ano é 2210. A raça humana não está mais presa ao seu planeta natal, ela espalhou-se pelo sistema solar, ocupando Mercúrio, Vênus, Marte, a Lua, Júpiter e Saturno, penetrando no campo de asteróides como uma horda de pequenas formigas metálicas. A Terra está sob o domínio do governo militarista da CEGA (Central Earth Goverment and Administration – Governo e Administração Central da Terra). A Lua e Marte estão parcialmente controladas pelo mesmo, e os vários planetas e colônias do sistema solar estão sofrendo a tensão de um eventual avanço de suas forças. Mercúrio e sua frota de mercadores tenta permanecer neutro, Vênus acredita ser intocável pois exerce através do Banco de Vênus, uma enorme influência sobre a Terra e, em caso de conflito, prepara secretamente suas forças. Júpiter é talvez a única ex-colônia capaz de enfrentar diretamente suas forças e o centro do universo deste jogo.

Jovian Chronicles (Crônicas ‘Jupiterianas’, ou Jovianas), como outros RPGs da Dream Pod 9, têm um foco nos acontecimentos de uma esfera muito acima daquela normalmente tratada pelos players e carrega o universo com um tom “militarista” que permeia todo o livro. Demorei muito para ler esse livro, pois fiquei temeroso de ser mais um wargame que um RPG. Fiquei feliz em ter esta expectativa derrubada pelo mesmo.

O ambiente de JC é militarista sim, e trata especialmente de acontecimentos relevantes a todo o sistema solar, e não apenas ao planeta, estação, ou cidade no qual se passa o jogo. Mas essa é também uma de suas maiores forças. Aqui vemos um esforço enorme tanto em dar ao jogadores e mestres uma ambientação consistente, como de criar um terrivelmente intenso clima de ‘pré-guerra’, capaz de fazer os fãs de Babylon 5 simplesmente babarem com a expetativa de uma campanha épica de ficção científica. E apesar de toda esse grande esquema estar se delineando no horizonte, JC também não apenas suporta, mas reforça a opção de jogar com uma variedade imensa de papéis não-militares. Detalhes sobre as culturas de cada colônia, nova nação, sobre a própria Terra, e sobre os maiores grupos, são dados no livro. Além disso, cada uma dessas entradas é seguida por dicas de interpretação quando se é, ou quando se está tratando com um membro desses grupos e povos.

O clima de Anime em JC é outra constante dos jogos da Dream Pod 9 (Heavy Gear escancara isso, e mesmo Tribe 8 não rompe tão fortemente com o estilo). Não apenas a arte é extremamente evocativa, como a apresentacão e motivação das personagens apresentadas, com a devida dose de melodrama, humor e mesmo heroísmo juvenil tão típicos.

“O vácuo gelado cerca o Pathfinder Alpha de Pauline. Philip, Louis e Tamara são catapultados do Valiant logo após. Seu HUD (Head Up Display – Monitor Acima da Cabeça) praticamente brilha com tantos pontos e informação. Três dos Bricriu foram em direção ao Veloz, o quarto continua atacando Nova Montreal. O Tengu tenta manter o Valiant fora da ação principal e longe de defender a estação.

Nova Montreal queima. Pedaços enormes da estação se separam e são arrastados pela poderosa força gravitacional de Júpiter. Pauline fica congelada de horror por um momento. Então, controla-se novamente, e escolhe um dos Wraiths como alvo.

O Pathfinder é mais rápido e ela é habilidosa o suficiente. O treinamente dado pela tenente Helene Juno é pesado, cruel, e desgastante, mas vale cada segundo. Pauline sente isso agora quando seu Pathfinder agarra o Wraith pelas ‘costas’ e ela liga sua lança de plasma, rasgando a nave inimiga com alguns golpes.

Isso não a faz se sentir melhor. Ela deseja gritar quando vê uma nova secção da Nova Montreal mergulhando em Júpiter, mas luta contra isso e, quando se dá conta, percebe mais luzes no seu HUD.

O Tengu acabou de lançar seis exo-armaduras Wyvern”.

O Jogador
A criação de personagem tem uma quantidade de pontos variável, dependendo do tipo de campanha escolhida pelo mestre e jogadores, passando de uma campanha mais realística e brutal até uma cinemática. A ação de JC não se passa apenas no espaço, e os arquétipos apresentados para NPCs (que podem ser ligeiramente modificados para tornarem-se PCs) demonstram isso.
O processo de criação da personagem é fácil e não envolve diretamente a conceituação dela, como ocorre com Unknown Armies, Kult, Kindred of the East e mesmo o Tribe 8, também da Drem Pod 9. Mas isso não quer dizer que o processo seja simples, afinal a escolha de onde veio, onde vive e para onde vai a personagem, afeta diretamente a campanha e sua criação, e mesmo não sendo diretamente abordado na distribuição mecânica dos pontos (como é feita em Blue Planet), as dicas dadas na informações sobre cada planeta em relação aos personagens criados tendo eles em mente, são suficientemente inspiradoras.

Para diminuir a sensação de “vamos colocar os pontos e deixar a caracterização para depois”, o processo tenta ainda incorporar nele uma conceituação baseado em 20 perguntas sobre a personagem. Mas isso em si não reforça o conceito sobre a mecânica e a mesma tentativa pode ser vista em diversos outros RPGs, como Vampire ou Shadowrun.

Os pontos acabam então sendo distribuídos em atributos e perícias, sendo as perícias “bônus” dados nos testes. Analisaremos mais isto na parte de sistemas.

Enfim, a criação de personagem não é hiper-complexa. Podemos dizer até que é um processo rápido, mas jogadores e mestres devem cuidar para que esta, dependendo claro da natureza do jogo, seja mais voltada ao roleplaying ou roll-playing, já que tudo começa com a escolha da campanha e tipo das personagens permitidas.

“O reflexo do rosto de Pauline nos instrumentos não a deixava confiante. Ela sentia medo, e muito. E cada pedaço de suas expressão quando lia os indicadores com as informações sobre os Wyvern, não melhoravam em nada os prospectos do que poderia lhe acontecer.

Pauline tocava os controles agora com mais força. Uma coisa eram os Wraith, outra eram os Wyvern. Então ela viu três deles partirem para a área de suporte de vida de Nova Montreal…

‘Lacroix, detenha aqueles Wyvern! Philip, Louis, aproximem-se e deêm suporte a ela. Tamara, cuide dos Wraith restantes’, gritava a tenente em sua cabeça. Pauline deixou de lado o choque e o medo, sentindo a força da gravidade pressionando sua carne enquanto acelerava em direção aos Wyvern.

Dois se viraram para ela. Seus intintos mais que sua razão a fizeram guinar ao mesmo tempo que lançava seus mísseis, já travados em um dos Wyvern.

Trinta e duas toneladas de metal, plásticos e diversos outros materiais, se desviaram dos disparos das bazucas hipergólicas dos Wyvern ao comando de Pauline. Foi por pouco. Um dos Wyvern não tem a mesma sorte, e seus sistemas computam um alvo a menos.

Um sorriso nervoso surge em sua face suada e ela lança um segundo míssel contra o outro Wyvern, ao mesmo tempo que acelera para aproximar-se dos outros quatro. Mais alívio surge ao ver a tenente Juno aproximando-se dele e lançando por sua vez, seus mísseis”.

Mestre do Jogo
JC tem uma das mais bem estruturadas diagramações já vistas, tornando-o agradável de se ler e ao mesmo tempo dando um ar de “livro técnico”, obviamente ilusório, mas agradável quando se pensa no conteúdo e na harmonia dos conceitos.

O livro assusta um pouco se for apenas folheado. Parece ter regras demais em páginas demais. Esse efeito permanece até que finalmente cria-se coragem para ler o dito cujo.
Não apenas a história de abertura é extremamente envolvente, servindo mesmo como uma introdução para uma campanha, como o texto é agradável, útil não apenas por dar uma visão profunda e agradável do tema, como nos diversos conselhos de como ou não o universo do jogo deve ser encarado.

O livro é suficientemente completo para não precisar de suplementos, já vindo com uma quantidade boa de regras para todo tipo de ocasião, uma boa dose de ambientação e informações sobre caças espaciais, exo-armaduras e mesmo naves de grande porte. Os planetas e colônias são tratados com uma dose boa de detalhes e idéias, tanto para aventuras como para personagens. Similarmente eles também tratam das principais organizações, como a Guilda de Mercadores de Mercúrio, a Cruz Solar (uma espécie de Cruz Vermelha) e o Banco de Vênus.

É inclusa também uma campanha, ou melhor, uma idéia de campanha, com dados sobre as naves e personagens envolvidos. A arte do livro, totalmente baseada em animes, também ajuda o mestre a conceber melhor o jogo e passar acuradamente essa idéia aos jogadores.

“”Mas ela não tem a mesma sorte uma segunda vez. Pauline sente o choque dos disparos sendo feitos contra ela. O HUD tremula, e ela vira-se com uma dose maior de raiva e desespero, mantendo a mesma direção, e girando sobre si mesma enquanto dispara o canhão de partículas no Wyvern a seu lado.

A falta de reação do atacante a deixa desconfiada por um momento e depois mais confiante: ele deve ter sido atingido internamente pela carga elétrica do seu disparo.

Ela vira novamente seu Pathfinder a tempo de ver Philip sendo atingido por dois dos Wyvern, que dando cobertura ao resto de seu grupo, pararam para enfrentar o time de Pauline. Os mísseis primeiro arrancam um braço da exo-armadura de Philip e depois atingem em cheio seu tórax.

‘Philip está fora de ação, concentre-se nos que fugiram, eu cuido desses dois!’, grita a tenente, e novamente Pauline acelera. Louis, que havia passado por ela, lança seus mísseis, atingindo um dos Wyverns restantes, que vira-se e se arremessa contra o Pathfinder dele.

Resta um e Pauline precisa detê-lo. Ela passa rápido por Louis e o piloto da CEGA, lutando no espaço com poderosos socos de suas armaduras.”

Sistema
O Silhouette System, usado pelos jogos da Dream Pod 9, consiste em lançar um número de D6 igual ao atributo, e somar ao bônus (valor) da perícia, comparando a uma dificuldade escolhida pelo mestre. O sistema é simples e rápido. As peculiaridades dele o tornam um pouco mais complexo e ele encanta pela forma como cuida do dano, sendo um sistema extremamente letal.

No JC vem também incluso todo um sistema para combates e uso de veículos, seja terrestre, aéreo, espacial, etc. Ele usa hexágonos como base, mas pode ser convertido para metros, se não forem ser usadas miniaturas, ou algo do tipo, mas apenas Roleplaying.
O sistema é complexo, e poderia mesmo ser um wargame à parte. Mas não é pesado o suficiente para tornar as ações super lentas, e pode mesmo ser usado sem muitos problemas, durante uma sessão de jogo normal.

“”Pauline prepara-se para derrubar o último, com seu Pathfinder o alcançando lentamente. Suas armas travam sobre ele, e ela escolhe atingir o compartimento do piloto, possivelmente o deixando inconsciente com o disparo do canhão de partículas.

Então ela sente a explosão nas costas de sua exo-armadura. Os sistemas fraquejam, piscam. Pauline sente o piloto preparar-se para explodir o sistema de suporte de vida, vê ele mirando a bazuca e imagina a milhares de pessoas mortas no vácuo. Ela não pode permitir isso.

Ela chora quando usa o restante de energia e força de seu Pathfinder em uma descarga única, o impulso e força espalham suas lágrimas pelo rosto e capacete. Ela alcança e tampa com a mão de sua exo-armadura a bazuca do Wyvern. Seu veículo morre nesse momento, a última fração de energia gasta nesse esforço desesperado.

Pauline estremece com a explosão que arrebenta metade de seu pathfinder e joga no vácuo o piloto do Wyvern. Ela cai então, tranquila, para o olho vermelho de Júpiter. Mais uma heroína na guerra inútil contra a CEGA.”

Conclusão
Dentre as poucas opções de Ficção Científica para RPG, JC se destaca pela sua complexidade e por seu incrível potencial. Diferente de Blue Planet, ele parece menos contido e mais da “síndrome de suplementos”, e com uma maior adaptabilidade para diversos tipos de campanhas do gênero.

Apesar do foco maior de JC ser no mundo dos animes, ele pode ser usado sem apelar sempre para esta estrutura, sendo um livro de RPG de Ficção Científica antes de qualquer outra coisa.

Por Haroudo Xavier