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RPGs Bizarros: RIFTS

Imagine um futuro não muito distante. Um futuro onde a humanidade finalmente alcança a paz mundial, e onde os países, auxiliados pelas grandes corporações transnacionais, vivenciam a descoberta de uma maravilha tecnológica após a outra, como a nanotecnologia e a tecnologia de criar objetos praticamente inquebráveis a partir de polímeros e amálgamas nanotecnológicos.

Eis que os cientistas e corporações voltam seus estudos para o aprimoramento do ser humano; não apenas o desenvolvimento de sistemas cibernéticos (usados principalmente para fins médicos) e biônicos (cuja finalidade é basicamente marcial), mas o desenvolvimento de métodos pelos quais poderiam ser criados os “seres humanos perfeitos”.

Vários são os caminhos seguidos na busca deste ideal, desde a difícil e lenta engenharia genética, passando por implantes cerebrais que permitem o uso de maior potencial do cérebro e do sistema nervoso (tendo como “leve” efeito colateral a sanidade da sua “cobaia”) até a manipulação nanotecnológica e química do corpo humano, criando um homem ou mulher dezenas de vezes mais fortes, mais ágeis e mais resistentes que uma pessoa comum (considerando que a aceleração do metabolismo humano deste modo faz com que seu organismo como um todo entre em colapso cerca de cinco anos após a aquisição destes “super poderes”.

Após décadas procurando alcançar a perfeição do ser humano, o que fazer com esta tecnologia? Pra que serviria o homem perfeito? Dada a natureza humana, claro que seria para a guerra; aquelas nações e corporações que ainda não haviam descoberto como criá-lo desejavam a tecnologia, enquanto que os que possuiam os materiais e métodos se recusavam a compartilhá-los.

E o mundo novamente mergulha em uma guerra de proporções globais, só que desta vez a tecnologia e os soldados eram centenas de vezes mais poderosos dos que utilizados na última Grande Guerra Mundial. Em meio ao caos, à destruição e à loucura, bilhões de seres humanos são mortos em questão de minutos, sendo que a imensurável energia psíquica liberada com a morte destes bilhões é absorvida pelas místicas “Ley Lines”, que são linhas invisíveis de energia sobrenatural que cruzam o planeta.

As “Ley Lines” pulsam com vida própria devido à energia recém adquirida, e emitem ondas de energia mística que provocam tempestades, terremotos e anomalias dimensionais por onde passam. O ponto onde duas ou mais “Ley Lines” cruzam formam os “Nexus Points”, onde a energia mística das “Ley Lines” pulsa com força multiplicada, e nesses pontos a prórpia tapeçaria do contínuo espaço-temporal é rasgada, formando verdadeiras “Rifts” dimensionais, que ligam a Terra com outras dimensões, mundos e eras. Todos os tipos de criaturas, entidades e seres saem destas “Rifts”, assim como a verdadeira magia (que há muito tempo havia deixado de existir) passa a emanar das “Rifts”, e o moribundo planeta Terra é então transformado.

Passaram-se cerca de 300 anos desde o surgimento das “Rifts” (ninguém sabe ao certo quanto tempo se passou), e só agora a humanidade começa a emergir da nova idade das trevas, para reclamar para si o seu planeta natal. Uma Terra estranha e diferente, que é partilhada com criaturas inimagináveis, e muitas vezes terríveis. As antigas civilizações e potências não mais existem, e pouco resta daquela lendária era “pré-Rifts”, mas novos povos e civilizações surgem para defender a humanidade, alguns através do uso de alta tecnologia, outros através de magia e alguns utilizando ambos.

Deuses antigos, demônios, criaturas lendárias e mitológicas, vampiros, fadas e outros seres sobrenaturais dividem o mundo com ciborgues, magos, mercenários que utilizam alta tecnologia, psíquicos, armaduras mecanizadas, robôs gigantes e viajantes dimensionais.

Agora a Terra é como um centro do Multiverso, podendo-se atingir qualquer outro mundo, dimensão ou era, necessitando para isto apenas caminhar através de uma “Rift”, e enquanto a humanidade luta para reconquistá-la, outras entidades e seres sobrenaturais têm suas próprias, e diferentes, ambições.

O sistema de jogo utiliza os tradicionais d4, d6, d8, d10 e d20, e os personagens possuem oito atributos: IQ (inteligência), MA (afinidade mental, algo como simpatia, carisma e liderança), ME (resistência mental, considerada também a força de vontade), PP (destreza física, que engloba agilidade, coordenação motora e destreza), PS (força física), PE (resistência física), PB (beleza física, ou aparência) e Speed (velocidade). Os atributos físicos podem ser considerados naturais (como os de humanos, elfos, e demais humanóides comuns) ou sobrenaturais (como o de dragões, demônios e outros seres sobrenaturais).

Graças a nanotecnologia, conseguiu-se criar materiais ultra-resistentes que foram usados para criar veículos, armaduras mecanizadas e robôs gigantes que não são afetados por armas convencionais (“Você não esperava realmente que uma pistola 9mm fizesse algo mais do que arranhar a pintura de um tanque, não é mesmo?) e assim as categorias de dano são duas diferentes: SDC (Structural Damage Capacity, ou Capacidade de Dano Estrutural), que compreende itens comuns (portas, carros, computadores, armas e armaduras medievais) e seres vivos naturais (humanos, cães, árvores e plantas) e MDC (Mega Damage Capacity, ou Capacidade de Dano Aumentada), que implica em TOTAL resistência a ataques de SDC e que compreende objetos criados com tecnologias especiais como os acima e os seres sobrenaturais, como dragões e outros seres sobrenaturais. Para fins de jogo, existe uma conversão de 100 SDC ser equivalente a 1 MDC, mas 1 MDC é suficiente para vaporizar pessoas comuns, daí o imenso poderio de armas laser e geradores de plasma. Os seres vivos possuem “hit points” (pontos de vida) e SDC, que explica situações como nos filmes de velho oeste onde o mocinho recebe vários tiros e mesmo assim consegue eliminar os vilões. O SDC seria algo como “resistência extra” além dos pontos de vida, que só seriam atingidos após o fim do SDC.

As classes (O.C.C. – Ocupational Chararcter Classes) são bem diversas, indo desde um mercenário que possui alguns implantes biônicos e armas de alta tecnologia, passando por ciborgues repletos de implantes cibernéticos e biônicos e “Cyber-knights”, um cavaleiro moderno que alia a tecnologia com alguns poderes psiônicos, até chegar aos “humanos aumentados”, como o “Crazy”, com implantes cerebrais que ativam poderes psiônicos latentes e aumentam a força, resistência e reflexos, mas provocam insanidade progressiva e crescente, e o “Juicer”, que com computadores implantados dentro do corpo e nanorrobôs controlam poderosas drogas que fazem com que ele se torne um super-homem com capacidades físicas muito superiores às dos demais humanos, mas que levam à sua morte em aproximadamente cinco anos. Além disso, existem os humanos “comuns” especialistas (como cientistas, pesquisadores da era “pré-Rifts” e soldados sem implantes biônicos), bem como praticantes de Magia e membros de outras raças (R.C.C. – Racial Character Classes) como psiônicos (sim, eles são mutantes), animais mutantes e até mesmo dragões (recém-nascidos, é claro), sem esquecer dos tradiconais elfos, ogros, anões e uma gama enorme de raças.

As perícias são determinadas em percentuais, que aumentam na medida em que o personagem passa de nível, e se dividem em várias categorias, como Comunicação, Domésticas, Espionagem, Militares, Físicas, Pilotagem, Perícias com Armas, por exemplo. Cada classe de personagem ou raça (O.C.C. ou R.C.C.) começa com algumas perícias comuns à classe (para evitar algo como: “O que? Seu piloto não sabe ler um radar?”), perícias relacionadas à classe (aquelas que ele aprende junto com as básicas, mas variam entre os membros de uma mesma classe ou raça) e perícias secundárias (os hobbies de seu personagem, que não podem compreender perícias como demolição e medicina cibernética).

Toda essa imensa variedade pode deixar os iniciantes um pouco confusos, ainda mais porque as regras não são muito claras, e existem certos tópicos que podem gerar controvérsias, como o fato de todos os personagens necessitarem do mesmo valor em um d20 para acertar o alvo, mesmo que não tenham prática alguma com armas (as perícias com armas conferem um bônus na verificação de acerto, permitem tiros em rajada e maior rapidez para recarregar as armas), apenas como exemplo, mas nada que o mestre do jogo não possa corrigir com os jogadores. O jogo também permite criar personagens extremamente poderosos, cabendo ao mestre determinar em conjunto com o grupo o que será permitido e o que será vetado. Afinal de contas mesmo que você não goste de interpretar semideuses, existem aqueles que gostam, e aqui entre nós, sempre é bom ter a opção, não é verdade?

O jogo Rifts é editado pela Palladium Games, e permite a total integração entre os demais jogos da Palladium, como o próprio Palladium Fantasy Role-Playing Game, Ninjas & Superspies, Heroes Unlimited, Teenage Mutant Ninja Turtles, Nightbane, Robotech e Beyond the Supernatural. Ele tem vários suplementos já publicados, que expandem a visão do mundo e do Multiverso e acrescentam várias novas raças, classes, perícias, magias e poderes psiônicos, e a tendência é continuar se expandindo.

O Multiverso está de portas abertas, esperando por corajosos (ou incautos) aventureiros… Algum voluntário? :)

Marco Andre Mezzasalma