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RPGs Bizarros: Rolemaster

Em 1974 surgiu o primeiro RPG: Dungeons & Dragons, baseado nos milenares e ainda hoje populares jogos de estratégia. O sucesso foi imediato, e logo tínhamos uma vasta gama de diferentes jogos, como Tunnels & Trolls e o próprio Advanced Dungeons & Dragons, uma evolução de seu precursor. Foi nesse cenário, ainda nos anos 70, que surgiu Rolemaster.

Era a época dos sistemas. Julgava-se a qualidade dos jogos a partir da engenhosidade, detalhamento e “realismo” de suas regras. A interpretação, muitas vezes relegada a segundo plano, ficava a cargo do gosto de esparsos mestres e jogadores um pouco mais refinados. O importante era reproduzir com dados e tabelas a chance de realização de toda e qualquer ação prevista ou imprevista.

Lançado pela ICE (Iron Crown Enterprises), Rolemaster apresenta um sistema de regras para campanhas passadas num cenário de fantasia medieval baseado em grandes equações matemáticas idealizadas por seus criadores, físicos, matemáticos e engenheiros. Felizmente para mestres e jogadores, os resultados das mesmas estão dispostos em grandes tabelas organizada de forma bastante compreensível nos três livros básicos do sistema: “Character Law”, onde mostra-se como construir personagens e se explica o funcionamento de um RPG, como organizar uma aventura, etc., “Arms Law”, onde são explicadas as regras dos vários tipos de combate não mágico existentes e onde encontramos as famosas e gigantescas “tabelas de resolução de ataque”. Há uma para cada arma, cabendo ao mestre familiarizar-se com elas sob pena de, literalmente, “enrolar-se todo” caso não o faça. Finalmente, em “Spell Law”, encontram-se as regras de magia, junto com as “spell lists”, listas de feitiços a serem utilizados em jogo.

Apesar de ter sido desenhado como um sistema genéricos para jogos medievais, Rolemaster inspira-se claramente na obra de J.R.R. Tolkien ( autor de “O Senhor dos Anéis” e “O Silmarillion”, entre outros), dada a descrição de raças e classes de personagem. De qualquer modo, o capítulo final do “Character Law” apresenta um dos mais completos manuais de que se tem notícia para a criação geográfica, histórica e social de mundos para ambientar a campanha, baseado em fatores aleatórios além, é claro, do bom senso do mestre.

Cada personagem de Rolemaster possui dez atributos e pode escolher entre uma miríade de classes (profissões), raças e habilidades diferentes, garantindo que um personagem será bastante diferente de outro da mesma classe. Infelizmente, traz também um vício dos RPGs da primeira geração, que é a utilização de processos aleatórios para a confecção do personagem. Isso se manifesta na escolha de backgrounds (antecedentes), onde vantagens e desvantagens são adquiridas através de rolamentos percentuais a serem comparados com as tabelas pertinentes. Como era de praxe em sua época, o avanço dos personagens é medido em níveis de experiência, a serem ganhos através de lutas, ações heróicas e boas idéias.

O sistema trabalha quase que exclusivamente com porcentagens (d100), diminuindo assim a quantidade necessária de dados. Pena que, como mencionado, a necessidade de consultar uma tabela diferente para cada ação exija bastante experiência no manuseio do livro para que o andamento do jogo não seja prejudicado. O combate, tanto físico quanto mágico, resolvido através das tabelas contidas no “Arms Law” e “Spell Law” é peculiarmente mortal, dada a alta abundância de “critcals” (golpes certeiros que produzem sangramentos, fraturas, morte instantânea, etc.) que descrevem em precisão a injúria sofrida pela vítima do ferimento. Para não fugir à regra, também estão organizados em tabelas de acordo com o tipo (frio, calor, impacto, corte, perfuração, etc).

De qualquer modo, trata-se de um sistema eficiente para mestres e jogadores preocupados com veracidade e exatidão das ações. Existem vários suplementos lançados ao longo dos anos que expandem o número de profissões, magias e habilidades: os Compendiums, esgotados há muito e quase impossíveis de serem encontrados a venda em qualquer lugar (apesar de os livros básicos conterem já uma rica gama de informações). Talvez, entretanto, vejamos em breve uma nova edição, pois a ICE lançou recentemente o Rolemaster Standard Rules, uma nova versão do Rolemaster com quatro livros ao invés de três (o novo chama-se exatamente Rolemaster Standard Rules). Apesar de um tanto quanto rejeitada por jogadores mais antigos, está sendo bem sucedida em conquistar novos adeptos.

Por Eduardo Sauron